
01 A Bossa Nova É Foda 02 Um Abraçaço 03 Estou Triste 04 Império Da Lei 05 Quero Ser Justo 06 Um Comunista 07 Funk Melódico 08 Vinco 09 Quando o Galo Cantou 10 Parabéns
11 Gayana
Gravadora: Universal
[rating:4]
É pau, é pedra, é o fim, é Anderson Silva, é Caê, é abraço, é dança da moda, é bossa nova, é foda!
Assim como as guitarras ferventes de “Odeio” (uma das mais irascíveis faixas de Cê (2006)), no mesmo compasso Caetano Veloso abre o novo Abraçaço com “A Bossa Nova é Foda”, que cita MMA, restos de rabada, Rio São Francisco e canavial.
O refrão é hipnótico e fica ainda mais alienante com as inúmeras repetições dos vocais engrossados de Caetano.
A primeira faixa dá a impressão de que Abraçaço encerra com agressividade a trilogia iniciada com Cê e condensada em Zii & Ziê (2009). O próprio título é entoado como despedida, com um interessante paralelo: em entrevistas, o músico afirmou que gosta da construção da palavra e geralmente encerra os e-mails com o termo. Na canção “Um Abraçaço”, ele mesmo não nega a influência da tecnologia (‘nossos computadores: luz’) e evita a obviedade daquele músico antiquado fixado na música dos anos 1960-70.
Essa abordagem em relação à tecnologia é intensificada ao absurdo na sarcástica “Parabéns”, que conta com a participação de Mauro Lima: ‘Tudo mega-bom/Giga-bom/Tera-bom’.
Apesar de faixas melancólicas como “Estou Triste” (dispensável por parecer mal-sucedida tentativa de ser indie-recluso) e “Quando o Galo Cantou” (esta sim uma composição de força, uma das mais belas do álbum), Caetano segue em ritmo aventureiro pela estética do rock – que lhe caiu muito bem, há muito isso já foi dito.
“O Império da Lei” e “Quero Ser Justo” são intrinsecamente ligadas à naturalidade baiana do músico. A primeira fala de punir quem ‘matou meu amor’ – ‘E ainda mais quem mandou matar/Ter um olho no olho do jaguar’ -, que reflete a lei ‘sangue quente’; não puramente baiano, mas claramente nordestino, paralelos que lembram a política Lampião. Já a segunda, ornada por guitarras levemente caóticas, remete à humildade perante o amor, ‘uma das coisas mais lindas da natureza e da civilização’. Lições de sentimento de quem é da Bahia. Ou não.
Por falar nessa terra, em Abraçaço Caetano lhe roga um herói em “Um Comunista”: ‘um mulato baiano/filho de um italiano e de uma preta uçá’. Ele não cita o nome, como se o exemplo e sua trajetória fossem maiores que sua alcunha. É claro que o músico fala de Carlos Marighella, talvez o personagem histórico brasileiro mais relembrado em 2012. A canção não chega a ser uma ode (como levemente foi “Mil Faces de Um Homem Leal”, dos Racionais MCs); é um conto em que fica evidente a inclinação comunista de Caetano: ‘Não que seus inimigos estivessem lutando/Contra as nações terror que o comunismo urdia/Mas por vãos interesses de poder e dinheiro/Quase sempre por menos/Quase nunca por mais/Os comunistas guardavam sonho/Os comunistas/Os comunistas’.
(A canção é tão linda que dá vontade de colocar a composição inteira aqui.)
Sem medo de beirar o absurdo, Caetano encontrou espaço pra experimentar com funk carioca em “Funk Melódico”. Não que os praticantes da arte do incômodo devam colocar a música em último volume nos seus possantes t(ch)unados, uma vez que o funk é apenas um dos ritmos explorados na canção, que ainda envereda pelo hard-rock e rock experimental – tipo um DJ Marlboro meets Radiohead. Nos vocais, Caetano ainda flerta com rap e sela com sabedoria septuagenária: ‘O ciúme é só estrume do amor’. (Caetano ficou doido? Você é que está errado há mais de 40 anos se achasse esse baiano normal…)
Bate precoce saudade saber que a trilogia rocker de Caetano chegou ao fim com a excelente Banda Cê. Nem tente prever o que o compositor deve armar daqui pra frente. Talvez isso nem venha à cabeça com a audição de Abraçaço, que tem tudo para ser repetido uma, duas, três, quatro, cinco exasperadas vezes.
Melhores Faixas: “A Bossa Nova é Foda”, “Um Comunista”, “Funk Melódico”, “Quando o Galo Cantou”.
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ERRATA: O termo ‘possantes’ se escreve com dois esses, e não com ‘ç’, como estava anteriormente.
