Tulipa Ruiz é uma cantora que se garante. Não somente por conta da aceitação imediata do recém-lançado segundo disco, Tudo Tanto.
Efêmera, de 2010, é um debut que impressionou por mostrar a profundidade de momentos corriqueiros – andar na Augusta, ir ao shopping (“Às Vezes”), mostrar uma inocente paixão confundida com amizade (“Pedrinho”), chegar atrasada ao cinema (“Pontual”) – com uma voz que, logo de cara, impôs sua unicidade.

01 É 02 OK 03 Quando Eu Achar 04 Like This 05 Desinibida 06 Script 07 Dois Cafés 08 Expectativa 09 Bom 10 Víbora
11 Cada Voz
Shows intensos aqui, elogios desbravados acolá, em 2011 Tulipa consolidou sua posição como uma de nossas maiores cantoras. E, sem muito compromisso, colaborou com duas das faixas mais potenciais de Memórias Luso-Africanas, do produtor Gui Amabis: “Sal e Amor” e “Ao Mar”.
Com a chegada de Tudo Tanto, todo mundo já imaginava que não tinha como Tulipa decepcionar com a voz. Ela tem um timbre poderoso, que encontra espaço na MPB que vem da escola de Gal Costa, no pop-rock de Paula Toller ou até na música vanguardista de Suzana Salles e Vânia Bastos.
O disco começa com “É”, o monossilábico primeiro single que já ganhou clipe (confira no final do post). Ele tem força pop e é viciante, de grudar facilmente na cabeça daqueles que escutam rádio, apesar de não representar algo de tão diverso na obra de Tulipa.
Mas, calma. A grande virada vem logo na segunda música: “Ok”. Ela fala o tanto que um possível companheiro tem que mudar para agradar no romance – e não a todos (‘calculado mesmo sem medida‘). É como se Tulipa estivesse querendo se desvencilhar dos elogios pomposos ao seu trabalho, muito bem falado graças ao disco de estreia.
Se ela está ok ou não, é a tua audição de Tudo Tanto que vai comprovar. De uma forma indireta, ela diz que não quer ser rotulada; quer evitar que os argumentos sobre sua obra apareçam ‘tudo afiado na ponta da língua‘.
Pode ter certeza que isso está longe de acontecer em Tudo Tanto. Novidade é que não falta.
Com capacidade de surpreender uma gama de fãs que vai de Marina Lima a Nação Zumbi, “Like This” é a faixa mais pessoal do disco. Nela, a cantora dá assertividade à sua procura de fugir dos termos óbvios: ‘eu sou assim, assim, assim‘. Assim, abrasiva; assim, roqueira; assim, imprevisível.
Na canção, Tulipa urra a ponto de você sentir as vísceras se expelindo. As guitarras do irmão Gustavo Ruiz e o pai Luiz Chagas, junto às programações de Daniel Ganjaman, são meros isqueiros para a voz flamejante da cantora, que manda um uóóóóóó de ecoar nos quatro cantos do nosso mundaréu.
“Víbora” é uma das faixas que mais impressionam do disco e vai chocar muitos fãs. Tal qual uma Patti Smith transtornada, a canção une dramaticidade e fúria temperadas pela guitarra suja de Chagas, ex-membro da banda de Itamar Assumpção.
Tulipa está venenosa, f*dida, brava pra cacete: ‘Mas é só você/Que tem o dom/De me enganar/Me seduzir/Me desdobrar/De me cuspir‘. Ela arregaça a garganta em tons moderados, como ondas nervosas que surgem em pequenos intervalos de calmaria.
Nesta faixa (“Víbora”), Criolo contribui com sussurros que evocam clima de suspense; sem deixar de mencionar o violoncelo de Fernanda Monteiro, o clarone de Juliana Perdigão, o synth de Márcio Arantes…
E por falar em participações, seria um pecado não citar a de Lulu Santos em “Dois Cafés”. O cantor de pop-rock joga seu modo slide na guitarra e Dudu Tsuda chega com moog, mas na canção permanece o clima acústico sofisticado de um dueto que tem todos os elogios para ser repetido.
“Dois Cafés”, por si só, mostra uma nova direção nas composições de Tulipa (em parceria com o mano Gustavo Ruiz): ela parece ter ampliado o campo de visão iminente em sua forma de escrever e fala sobre como a correria do cotidiano é infalível em afetar o coletivo – e não somente ela.
O que era empírico (a experiência a partir do ‘eu’) tornou-se uma mensagem direta (a ‘você’, ‘nós’). Se antes a cantora deixava escapar a sua visão de mundo a partir de acontecimentos inusitados – o que ainda acontece em faixas como “É” e “Quando Eu Achar” deste novo trabalho – agora ela não hesita em transparecer suas idiossincrasias e preocupações. Pois, além de todas as nossas andanças, temos ‘conta pra pagar‘, pra ‘inventar família, enfrentar um lar‘: ‘Priorizar, se comportar, ter que manter a vida sem ter um lugar‘, como canta, ainda, em “Dois Cafés”.
Noutras palavras, nasceu a necessidade de ‘abraçar’ o mundo.
E quando Tulipa liga o descompromisso que permeou o primeiro disco ao tema mais ‘aberto’ do segundo (que justifica o título do álbum), o faz de uma forma tão natural quanto a beleza de sua voz. Em “Expectativa”, ela fala de ‘encontros-contos‘ na esperança de que o ‘inesquecível aconteça‘. Chega a segunda estrofe e ela já altera a conjugação verbal de ‘não me esqueço‘ para ‘nunca se esqueça‘. Ela deixa de dizer o factual do que aconteceu com ela mesma, e passa a se preocupar diretamente com você, ouvinte: ‘Nunca se esqueça de todas as coisas/Que fazem parte da tua vida toda‘.
Ou seja, além de atingir novos timbres com a sua voz (que engana aqueles que a achavam lúdica e surpreende fanáticos por Joan Jett), as composições de Tulipa também respiram outros ares.
‘Abraçar’ o mundo tornou-se uma necessidade: tanto em relação à estética musical (da MPB ao rock experimental), quanto o fato de perceber que falar sobre si mesmo a todo momento uma hora poderia se transformar em hedonismo.
Nesses quesitos, Tudo Tanto é mais ousado, mais livre de amarras que pensávamos que ela estivesse presa, mais eclético e bem mais visceral que o disco anterior.
‘Cada voz tem um tom/Cada vez tem um som/Ai, ai, ai, ai, ai/(…)Todos querem ver você cantar‘. Desfecho mais propício não há.
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Não mosca: o disco Tudo Tanto, de Tulipa Ruiz, está disponível para download gratuito no site oficial da cantora.
Créditos da Imagem: Aline Neves
