Gravadora: 360º Records
[rating:4.5]

São Paulo é uma cidade quase tão complexa quanto o seu tamanho. O quase cabe aqui porque, neste ano de 2011, diversos músicos se empenharam para decifrar toda a sua grandeza. No rap, isso se mostra evidente: Criolo mostrou ao grande público sua ode “Não Existe Amor em SP”, tal qual um Caetano rejuvenescido; o já prodigioso Mamuti NusCorre veio com o EP ZeroOnze, em alusão ao código de chamada telefônica da cidade; e o rapper Ogi, do Contra Fluxo, lançou neste ano uma espécie de cartilha autobiográfica dessa megalópole, com uma capa bem adequada dos Gêmeos em Crônicas da Cidade Cinza. (Sobre a representatividade destes três álbuns com a cidade de São Paulo, recomendo um excelente texto de Jéssica Albino.)

Crônicas da Cidade Cinza é mais ou menos como os livros que são divididos em diversos capítulos para tornar seu enredo mais palatável ao leitor

A primeira coisa que deve ser notada no trabalho solo de Ogi é a sua aproximação com a embolada. O verso ‘eu conto histórias das quebradas do mundaréu’, de “Cidade com Nome do Santo”, carrega o sotaque de um descendente nordestino que não nega suas raízes. Afinal, a cidade de São Paulo é feita por esses trabalhadores, e a maioria deles vive na ‘beira do rio e quase se afoga toda vez que chove’.

Alguns podem ficar assustados com a imensidão das 19 faixas, mas as letras e temáticas são bem dinâmicas, mais ou menos como os livros que são divididos em diversos capítulos para tornar seu enredo mais palatável ao leitor.

Ogi entra na pele dos personagens distintos que assume: em “Profissão Perigo”, relata um dia de trampo dos motoboys diante dos motoristas ‘tartaruga’, forjando a ousadia e o orgulho deles como se fosse parte integrante deste meio. “A Vaga” mostra os perrengues de um desempregado que tenta buscar oportunidades honestas e se esbarra por ‘atalhos’, como a bolsa de uma garota com um iPod ‘moscando’ e o convite de um amigo para fazer uma ‘fita’ no Anhangabaú (mas acaba conquistando a vaga de emprego como limpador de candelabro). “Por que Meu Deus” exibe o olhar de um policial ‘da contenção’ questionando a violência dos homens aqui na Terra.

E, já que se fala dos diversos temas de São Paulo, não poderia faltar realismo. Ainda assim, a realidade é a qual optamos por ver. “Profissão Perigo” e “A Vaga” dão indícios de que tudo ainda vai ficar bem. Em “Por que Meu Deus”, Ogi assassina o personagem principal para deixar evidente a importância que o trabalho tem nesta cidade: ‘Fui atingido no coração/logo caí com o malote na mão/é o final da jornada/não vejo mais nada’. Pode não ter sido intencional a colocação da palavra ‘jornada’, mas não tem como dissociá-la deste contexto.

A faixa mais longa de Crônicas da Cidade Cinza tem pouco mais de quatro minutos (“Sokizila”), o que garante uma eficácia ainda maior das rimas em um ritmo que diversas vezes foi pautado pelo excesso de eloquência. Mesmo quando parece que vamos ouvir um Ogi mais bélico (como a sequência “Pronto pra Guerra” e “Zé Medalha”), há momentos de descontração que estariam no discurso de um amigo próximo relatando alguma desventura. Exemplo: ‘Pitbull com dobermann/me inspiro nos golpes de Daniel San/ele pulou feito rã/quando encarnei o Jiraiya’, de “Zé Medalha”.

Além da eficácia, é preciso reconhecer que qualquer morador da cidade de São Paulo pode vislumbrar em seu imaginário a existência de cada um dos personagens descritos. Tudo bem que há aquela relação empírica: Ogi tem uma visão de quem percorreu e conhece toda essa dinâmica da cidade. Os trabalhadores aqui têm vez, ainda que seja evidenciada suas fragilidades (“Corrida de Ratos”) e também, em contraponto, a presença do otimismo (“Premonição”).

Do prólogo ao epílogo, os 50 minutos de duração do álbum são permeados por uma magia literária que prende o ouvinte. Ogi tem versos consistentes, alicerçados por uma produção excelente (remonta KiD CuDi com os arranjos de “Noite Fria”, vai para o P-Funk em “Minha Sorte Mudou”) e temas que dão identificação e cores distinguíveis para essa cidade tão cinzenta e esfumaçada.

Errata: segundo o próprio Ogi – e uma constatação do próprio autor do texto (eu)- em “Por que Meu Deus”, Ogi retrata o lado policial na primeira parte da canção. Depois do refrão, ele relata o lado bandido. Ambos morrem da mesma maneira.