Por mais que João Gilberto faça apresentações esporádicas ao redor do globo, com lançamentos fonográficos cada vez mais raros, ele continua na ativa. Mas quando é para relembrar a importância no legado da música popular brasileira, é inevitável recorrermos aos seus discos mais clássicos gravados entre as décadas de 1950 e 1970.

Foram estes álbuns que representaram a ruptura com as marchinas e sambas-canção chorosos e deram uma outra cara não só à música, mas também possibilitaram uma interpretação mais positiva sobre o Brasil.

Além de criar a batida sincopada que poderia ser atribuída a qualquer outro gênero musical daquela época, João eternizou lindas canções de Tom Jobim, Dorival Caymmi, Lúcio Alves, entre outros compositores. Muitas dessas canções foram regravadas por outros intérpretes, mas a tonalidade e a singularidade alcançada por João nunca foi repetida por ninguém.

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Confira abaixo os 5 discos mais importantes de João Gilberto:

5. João Gilberto

Ano: 1961
Gravadora: Odeon

O disco que completa a tríade da bossa nova (junto com Chega de Saudade e O Amor, o Sorriso e a Flor) evidencia a capacidade de João de tomar composições alheias e cantá-las como se fossem suas. É o caso de “Samba da Minha Terra”, canção de Dorival Caymmi que ganhou tons orquestrais e “O Barquinho” (Roberto Menescal), com suas rimas em diminutivo que mostram o apreço especial de João por canções minimalistas. Este disco também tem uma linda versão de “Insensatez”, com vocais arrastados levados numa síncope de samba. Belo registro!

Faixa: “Samba da Minha Terra”

4. En México

Ano: 1970
Gravadora: Polygram

O que era para ser uma curta passagem no México tornou-se uma estadia de quase dois anos. Nesse período, ele aproveitou para gravar seu primeiro disco sozinho no estrangeiro. E aqui, tudo saiu do jeito que ele queria. Ele gravou samba antigo – “De Conversa em Conversa”, de Lúcio Alves e Haroldo Barbosa -, uma adaptação da clássica “Trolley Song”, trilha do filme Agora Seremos Felizes, da década de 1940, além da extasiante calmaria de “João Marcello”, composição própria dedicada ao seu filho. O músico também se arriscou – e saiu bem – na língua espanhola, em faixas como “Farolito” (Agustin Lara) e “Besame Mucho” (Consuelo Velasquez).

Faixa: “O Sapo”

3. Getz/Gilberto

Ano: 1964
Gravadora: Verve

Stan Getz havia flertado com a bossa nova dois anos antes, quando gravou um disco com o violonista Charlie Byrd. O produtor Creed Taylor gostou do resultado e decidiu ir atrás dos bambas brasileiros que estavam conquistando tudo e todos com esse ritmo delicioso. Se, por um lado, gravar com João já era problema, com o arrogante saxofonista tudo só piorava. João chegou a chamar Getz de gringo ‘burro’ e impôs de qualquer jeito que o baterista Milton Banana tocasse no disco. Quem brilha aqui é a então novata Astrud Gilberto (então esposa de João), que rouba a cena em “The Girl From Ipanema”. Mas João ainda é a grande autoridade que louva nossos ouvidos em “Pra Machucar Meu Coração” e “Desafinado”. Ele ficou bem bravo depois que descobriu que o saxofonista aumentou seu instrumento na sala de edição, mas ainda chegou a gravar com ele um Getz/Gilberto vol. 2 e o disco ao vivo The Best of Two Worlds.

Faixa: “Pra Machucar Meu Coração”

2. Chega de Saudade

Ano: 1959
Gravadora: Odeon

O revolucionário disco que colocou a bossa nova em seu devido lugar tem o mérito que merece, mas não foi tão simples de gravar assim como as notas soltas de João dão a entender. Ele brigou com os engenheiros de som da Odeon e quase tirou Tom Jobim do sério durante as gravações (“você é preguiçoso, Tom, porque você é brasileiro”, chegaria a dizer ao maestro). Quase o disco fica no limbo. Bom para nós, ouvintes, e ótimo para a música brasileira, que começou a respirar outros ares com clássicos como “Chega de Saudade”, “Bim Bom”, “Desafinado” e “Saudade Fez um Samba”.

Faixa: “Desafinado”

1. O Amor, o Sorriso e a Flor

Ano: 1960
Gravadora: Odeon

Se Chega de Saudade foi o responsável por colocar a bossa nova no cenário da música popular brasileira, o segundo disco de João veio para fincar os pés. Suas composições próprias ganharam mais espaço, como é o caso de “O Pato” e a instrumental “Um Abraço no Bonfá”. Mas as interpretações de “Corcovado”, “Se É Tarde Me Perdoa” e “Meditação”, todas escritas ou co-escritas por Tom Jobim, provaram que a improvável dupla Tom e João merecem ter seus nomes no panteão da música mundial. Sem falar que este disco integra a canção que, para críticos e musicólogos (como Zuza Homem de Mello) é a mais perfeita de todo o movimento bossa nova: “Samba de Uma Nota Só”. Um clássico que, infelizmente, está fora do catálogo por brigas judiciais de João Gilberto com a antiga Odeon.

Faixa: “Samba de Uma Nota Só”