Antes de tudo, Gaby Amarantos não é nenhuma desbravadora. O terreno que hoje ela ocupa – e treme – já passou por muitas mãos no Pará até chegar às barraquinhas de camelô mais próximas de você.
Esse ritmo é o tecnobrega. Tecnobrega que veio pra ficar, pra evidenciar de vez a sua força da música independente brasileira, por onde quer que esteja.
Agora, um desafio a você, caro leitor: por que a cantora Gaby Amarantos ocupa um espaço na grande imprensa e conquistou elogios da mídia independente, enquanto que outros músicos expoentes anteriores foram atropelados ou praticamente ignorados ao longo de, pelo menos, uns dez anos pela considerada mídia especializada musical?
Sim, porque caso alguns não saibam, essa explosão do tecnobrega já vem desde o lançamento do disco O Ritmo que Conquistou o Brasil, da Banda Calypso, lá em 2002.
Treme foi um disco produzido para ser bombástico mesmo. Gaby Amarantos está ajudando a quebrar o muro que separa a música erudita e popular da música de massa
Poderia dizer que a novela da TV Globo, a Dança dos Famosos ou a alcunha de Beyoncé do Pará talvez tenham alguma coisa a ver. E, numa audição do disco Treme, lançado no primeiro semestre deste 2012, você percebe que ele é um disco pop, de fácil audição e de qualidade.
Mas algo ainda me incomoda: o que a Gaby tem que outros expoentes do tecnobrega não tinham?
Hora de viajar. Vamos fazer um comparativo lá atrás: antes de se tornar um símbolo reconhecidamente nacional, o samba sofreu muitos preconceitos por claros motivos políticos. Muitos tinham medo de que o encontro de pessoas do subúrbio para uma celebração caíssem no risco de um mote – ainda mais por conta de os pobres morarem em lugares próximos da tal sociedade aristocrática. O que impulsionou sua aceitação foi o fato de que o modernismo dos anos 1920 e o nacionalismo de Getúlio Vargas nos anos 1930 geraram uma atenção às diversas manifestações artísticas do país produzidas naquele momento em busca de um ‘ritmo nacional’. Intelectuais como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque se interessaram pela qualidade e pela mistura que resultou no samba. E, depois de um longo processo, o samba se tornou a música das massas, o símbolo nacional por sua dita ‘pureza’ e por sua brasilidade – isso até hoje, visto que o Carnaval é composto por sambas-enredo há mais de 60 anos.
O tecnobrega passa por uma dinâmica totalmente diferente. Afinal, estamos em um momento político considerado ‘democrático’ e a produção nacional tem abraçado cada vez mais a facilidade da tecnologia: para tanto, vide as produções lo-fi, o funk carioca. E, nesse campo emergente, também se encaixa o tecnobrega.
No entanto, este gênero durante muito tempo foi símbolo de vergonha nas metrópoles. Sim, vergonha. Pergunte a alguém considerado ‘descolado’ se ele tem em seu mp3 músicas de bandas de forró como Mastruz com Leite, Frank Aguiar, ou mesmo Calypso, que chegou a vender mais de 13 milhões de cópias de CDs e DVDs – fora os piratas – entre consumidores que costumam comprar a música dita de massa. A resposta é quase óbvia.
Mas existe um outro paradoxo que também deve se encaixar.
Vamos nos transportar para o Ceará. É de lá que vem o Cidadão Instigado, aquela banda de rock com claras influências do brega.
Fernando Catatau, guitarrista e líder da banda, já declarou que o primeiro LP que teve foi de Eliane (a Rainha do Forró), gosta de Alípio Martins (que popularizou a lambada; Gaby regravou uma música dele em Treme: “Vem Me Amar”) e já escutou muito Roberto Carlos. Hoje, o Cidadão Instigado tem amplo respeito no cenário musical, por mostrar que o brega é carregado de sentimentalismos, e que seus integrantes conseguem trazer um misto de influências que vão de Odair José a Jimi Hendrix.
Provavelmente, o Cidadão Instigado foi uma das bandas responsáveis pela popularização do gênero brega entre o público indie e alternativo. Isso fica perceptível nas linhas de guitarra de Catatau, que trazem o sentimentalismo árido do Nordeste para falar de temas condizentes com os ouvintes de sua música em metrópoles de outras regiões – como Sul e Sudeste. Quer exemplo maior disso que uma canção como “O Tempo”?
Gaby Amarantos tem seus méritos pelo reconhecimento do brega e da música do Pará. Afinal, ela é uma performer de presença, é carismática e reúne todos os gêneros que um dia já foram negados pela nossa ‘crítica aristocrática’: carimbó, guitarrada, calypso e também as exacerbações eletrônicas da nova música produzida pelo Pará nos últimos dez anos.
Treme foi um disco produzido para ser bombástico mesmo. O renomado Carlos Eduardo Miranda cuidou para que o debut de Gaby Amarantos fosse tratado com seriedade. Chamou o guitarrista Félix Robatto para trazer algo de orgânico em um ambiente nivelado por programas de computador – que também aparecem aqui, mas de forma menos ‘bizarra’ do que produções independentes. Para dar forte complemento ao time de Gaby, o engenheiro sonoro Cyz Zamorano, os conselhos do experiente Felipe Cordeiro e as participações de Thalma de Freitas e Iara Rennó expandem o público da cantora.
Uma vez que a indústria se mostrou interessada no gênero, não vai demorar para um público ainda mais amplo abraçar o tecnobrega.
Os diferentes ouvintes brasileiros estão se integrando. Não sei se ainda é cedo, mas arrisco dizer que Gaby Amarantos está ajudando a quebrar o muro que separa a música erudita e popular da música de massa. Talvez o tal ‘descolado da cidade grande’, a tal ‘mídia aristocrática’ e a tal ‘cultura de massa’ finalmente poderão entender porque tanta gente no Brasil gosta de música dançante – seja ela o axé, o funk carioca, o forró ou o tecnobrega.
Não digo que a aceitação do tecnobrega é ou se tornará plena a partir de Gaby Amarantos. Tudo isso é um processo que tem a ver com o contexto nacional, assim como teve o samba há mais de 80 anos atrás.
O tecnobrega está adentrando as elites. Conquistando os chatos. Invertendo a lógica dos intelectuais.
Porque Gaby Amarantos é popular, sim. E não será espanto nenhum ver alguns caras fechadas dançando ao som de sua música quando um doido qualquer passar ouvindo “Ex Mai Love”.
