Gravadora: One Little Indian
Data de Lançamento: 20 de janeiro de 2015
A música de Björk sempre teve a ver com exploração. Se discos como Vespertine (2001), Medúlla (2004) e, num sentido ainda mais imerso e contemporâneo (com direito a aplicativos e versão de remixes), Biophilia (2011) revelaram direções distintas de uma carreira sem paralelos na música pop, o recente Vulnicura explora outra coisa: ela própria.
Por isso mesmo, o álbum é carregado de uma complexidade que talvez nem mesmo ela pudesse esboçar em sua interessante trajetória artística. ‘Nosso amor era meu acolhimento/Mas nossa corrente se rompeu/Meu escudo se quebrou/Minha proteção foi roubada’. Quem imaginaria que essa islandesa, conceitualmente gélida em seus experimentos, um dia fosse abrir seu coração dessa forma?
E ela não faz isso apenas em “Black Lake”, certamente a faixa mais melancólica do disco (mesmo os fãs devem ter achado estranho deparar com a cantora em frangalhos, como ela faz nessa canção).
Vulnicura é fruto de sua separação com Matthew Barney e, como seria de se esperar, é carregado de dor e sofrimento.
Em Vulnicura, Björk se mostra demasiada intransponível no momento em que ela menos deveria ser. Quase tão fria como imaginamos que a Islândia seja.
Curioso perceber como Björk externa esse sentimento. Não é como o grito exasperado de Adele, em 21 (2011); nem moralmente decadente, como Back to Black (2006), de Amy Winehouse; muito menos pitoresco e cheio de lembranças passadas como o lendário Blue (1971), de Joni Mitchell.
Não importa se homem ou se mulher, quando um relacionamento dá os ditames de um disco, ninguém escapa da vulnerabilidade. Björk exibe essa fragilidade emocional, sim, mas não deixando que a lamúria influencie em sua voz – muito menos voltando ao aspecto musical mais cru possível, para que seu sentimento seja exposto ao máximo.
Em “Lionsong”, ela utiliza como artifício as técnicas eletrônicas que pautaram Biophilia, munida da inescapável tradição europeia de transmitir euforia com arranjos orquestrados.
Um dos grandes feitos de Vulnicura é mostrar o quanto o tradicionalismo musical engendra o estranho conceito artístico de Björk. Já em seu oitavo disco e mais de 20 anos de carreira, está claro que todas suas jornadas musicais compõem quem realmente ela é.
Para os padrões ocidentais, é ainda mais estranho: poxa, um disco de término de relacionamento não teria que ser claramente mais sofrido, mais visceral, mais pestanejante?
Ora bolas, o pop não tem espaço para a ópera, ou para um musical, algo que Vulnicura se encaixaria muito bem (não é difícil imaginar que algum aficionado ouse reinterpretar na posteridade as difíceis agruras deste disco).
Portanto, acaba por ser reducionista demais tratar Vulnicura como um disco de sentimentos, um break-up album. Se assim for, o ouvinte tenderá a limitar a pungência de violoncelos em “Family” e a tensão de “Notget” aos mesmos clichês que adornaram discos de Fiona Apple e Tori Amos: uma mulher em fúria, em chamas, cantando como se quisesse quebrar o pescoço do ex-cônjuge, acima de qualquer pretensão artístico-musical.
A forma de encarar álbuns como Vulnicura e muitos outros que estão por vir acaba sendo, majoritariamente, um exercício de machismo. Nessa avaliação, pesa mais a identificação com essa dor – especialmente se também nos depararmos com uma perda semelhante em nossas vidas – do que a interpretação musical do que representa essa fase na carreira do músico.
E, claro, quando não se entende bem, prefere-se elogiar que assumir a incompreensão.
Essa incompreensão é mais passível de assimilar que sua interpretação. Pois os próprios elementos musicais se contrastam com o ardor dos sentimentos e, quanto a isso, a islandesa oferece poucos direcionamentos. Vide “History of Touches”: o que o peso de um arranjo industrial-sci-fi acrescenta à ardilosa composição sobre lembranças na cama com o ex? Essas densidades formam uma antítese, e logo nos perguntamos se Björk não deveria enfrentar a si mesmo antes de evocar tais momentos. Não é nostalgia. Não é ressentimento. O que é?
Pois, em Vulnicura, ela se mostra demasiada intransponível no momento em que ela menos deveria ser. Quase tão fria como imaginamos que a Islândia seja.
As emoções não são transbordadas em seu canto; são expressas por todo o conjunto da musicalidade, por mais gélido que possa ser (melhor exemplo que “Family”, nesse sentido, não há).
Em alguns momentos, os ritmos entrecortantes podem ser mais significativos que a sinceridade de suas letras. Provavelmente não foi um intento meticuloso da artista, mesmo sabendo de suas incríveis habilidades artísticas. Já está intrínseco à Björk. Assim, não sentimos a mesma dor que ela, mesmo que a experiência não deixe de ser comovente.
