Gravadora: Interscope
Data de Lançamento: 9 de setembro de 2016
M.I.A. é a única representante pop dos refugiados, por isso o mero anúncio de que AIM possivelmente seja seu último disco é uma notícia ruim.
Representatividade é um termo que vai muito além dos efeitos práticos. É a falta do acesso e ao espaço que faz com que a música de Mathangi ‘Maya’ Arulpragasam – que passou a infância e adolescência como refugiada tâmil no Sri Lanka, até chegar a Londres, na década de 1980 – importe.
Com 4 álbuns e 3 EPs na bagagem, M.I.A. alia um discurso combativo com batidas urgentes, tão barulhentas quanto globalizadas, com elementos da música do leste europeu, do chifre africano, do rap e da eletrônica.
Em tempos em que se discute o fluxo imigratório que vem da Síria, na maior crise humanitária de imigração desde a II Guerra Mundial, deixar a música fora disso deixa de ser negligência artística para se tornar miopia.
Vale ressaltar: imigração é tema para se questionar o posicionamento xenófobo de Donald Trump, nos Estados Unidos; e discutir, também, a inserção de haitianos, por exemplo, no mercado de trabalho brasileiro.
É ao se deparar com pesquisas que indicam que Trump tem 45% de votos, ou na busca de entender a grande evasão em massa de haitianos para outros países sul-americanos, que me pergunto: não é aí que a representatividade de M.I.A. se encaixa? Não é essa representatividade que deve nos fazer questionar esses acontecimentos? ‘Isso é norte, sul, leste e oeste/As armas explodem portas para o sistema’, canta a cingalesa em “Borders”.
“Borders” já havia sido mostrada no ano passado, e mantém-se firme como o grande chamariz do disco. Comparável a hits como “Paper Planes” e “Born Free”, ela é a que melhor personifica as abordagens, reações e formas de lidar com a já mencionada crise de refugiados. Ela nem precisa citar o país usurpado por Bashar al-Assad para elencar as muitas coisas que estão em jogo: egos, valores, crenças, histórias, identidades, barreiras, política.

O discurso beligerante de M.I.A. em /\/\ /\ Y /\
“Go Off” tem um pé no dubstep – Blaqstarr e Skrillex contribuem na produção –mas não se apoia nele. O som é retraído, como se o gênero procurasse um buraco pra se desencavar e, como resultado, saísse um som truncado. Pega tão bem que a seguinte, “Bird Song”, uma ‘cuckoo-song’, soa divertida, apesar de passar longe dos picos criativos de M.I.A.
Mas, das participações, a que mais surpreende é a de Zayn Malik. Em “Freedun” seus vocais, mais uma vez, são mais representativos que bem colocados. Zayn é descendente de paquistaneses; numa canção em que M.I.A. canta ‘Nem ao menos preciso de religião/Sou uma nova fronteira nos horizontes’ dá pra perceber que ela não se adequou a ele, e nem o orientou a fazer o mesmo.
“Freedun” é uma canção difícil de deglutir em poucas audições, porque estabelece uma ponte para dois lastros, ainda que estejam no espectro pop, distantes entre si. Uma parceria com melhor envolvimento no disco pode-se ouvir em “Foreign Friend”, com Dexta Daps. Os vocais dancehall se dissolvem num eletro melancólico. Fronteiras, lembra? Elas se quebram.
Um dos grandes trunfos de AIM é captar essas diferenças estéticas entre seus parceiros. O foco anti-xenófobo é persistente, fazendo jus à força de sua representatividade. Mas as pontes estabelecidas, por mais estranhas que possam soar aos nossos ouvidos, integram uma lógica que a música pop sempre quis fugir. Porque, antes da apropriação, vem o diálogo. Ela, claro, mantém sua proposta como algo dominante, mas se propõe a fazer com que o outro ‘invada’ e amplie seus espaços. É algo de se esperar de uma cantora que acredita que nem Justin Bieber, nem Lady Gaga, nem Rihanna têm estilos distintos. “Na verdade”, disse M.I.A. ao Evening Standard, “as mudanças deles ocorrem de acordo com quem está estilizando-os”. É sério, se M.I.A. realmente se despedir da vida artística, muitas fronteiras continuarão fechadas.
Outros lançamentos relevantes:
• Nick Cave: Skeleton Tree (Bad Seed Ltd)
• Wilco: Schmilco (dBpm/Anti)
• Teenage Fanclub: Here (PeMa/Merge)
• Tonho Crocco: Das Galáxias (Natura Musical)
• Jack White: Acoustic Recordings 1998-2016 (Sony Music)
• clipping.: Splendor & Misery (Sub Pop)
• Dave Hollister: The MANuscript (Shanachie Records)
