Gravadora: Laboratório Fantasma/Sony
Data de Lançamento: 7 de agosto de 2015

O álbum de estreia O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013) deu a Emicida o ponto de partida para ir além das rimas. Naquela ocasião, o rapper paulistano quis expandir o universo que criou com mixtapes como Sua Mina Ouve Meu Rap Tamém (2009) e Emicídio (2010).

Canções como “Sol de Giz de Cera” (com Tulipa Ruiz) e “Crisântemo” mostraram uma faceta diferente do Emicida virtuoso nas batalhas de MC. Após estudar canto e abrir o gênero para o pop (como fez em “Hoje Cedo”, ao chamar Pitty), o rapper criou uma obra mais associada à world-music que ao rap em si.

Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa é ainda mais próximo da música do mundo. Emicida visitou, com patrocínio do projeto Natura Musical, países africanos como Cabo Verde e Angola, que também têm a língua portuguesa como matriz.

Essa viagem afetou mais na identidade de Emicida que na musicalidade das canções. Tudo bem, é possível encontrar as percussões características do continente em faixas como “Casa” e “Mufete”, mas é no discurso que sentimos melhor a densidade desse ‘encontro’. “Num tempo em que todo mundo fala de problema social, de corrupção, eu quis pôr um tempero aí, que é o racismo. Ele está ligado a tudo”, disse o músico em entrevista ao jornal O Globo.

Centrado no tema do racismo, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa também aproxima
Emicida da world-music

O tema ganha contornos mais complexos no disco. Em “Boa Esperança”, o teor é agressivo: ‘O tempero do mar foi lágrima de preto/Papo reto como esqueletos de outro dialeto/Só desafeto, vida de inseto, imundo/Indenização? Fama de vagabundo‘, vocifera, ao lado de J. Ghetto. (A canção ganhou um belo clipe com direção de Katia Lund e João Wainer.)

“Mandume”, por outro lado, mostra o cantor de cabeça erguida para combater os que querem que ‘nóiz seja mais humilde‘ e ‘baixe a cabeça‘. E ele não está sozinho: Drik Barbosa, Amiri, Muzzike, Raphão Alaafin e Rico Dalasam reforçam o coro.

A dobradinha “Baiana” (com Caetano Veloso) e “Passarinhos” (com Vanessa da Mata) mostra o compositor mais tranquilão, como se refletisse o ‘bom momento’ da viagem. São animadas, pra cima e pra frente; deixam em evidência o Emicida sentimental.

“Chapa”, com as Batucaderas do Terreiro dos Órgãos, valoriza a amizade, com um coro vocal que simboliza a união de diversas pessoas em uma mesma comunidade, por um bem comum.

“Madagascar” é uma das melhores faixas do disco, porque reflete bonito olhar sobre o continente que o rapper visitou. Levada acústica, refrão com vocais femininos e um Emicida dizendo que ‘beijos bons nunca terminam‘. Que não termine, também, essa boa fase, que vai render muitos bons frutos na carreira do cantor.

Outros lançamentos relevantes:

Teedra Moses: Congnac & Conversation (Shanachie)
Fear Factory: Genexus (Nuclear Blast)
Chelsea Wolfe: Abyss (Sargent House)
John Dope/TOP$: John Dope/TOP$ (Dirty Tapes)