Gravadora: A.O.I. Records
Data de Lançamento: 26 de agosto de 2016

O De La Soul é um dos raros exemplos de pioneirismo no rap. Com 3 Feet High and Rising (1989), o trio de Long Island mostrou que o gênero ia muito além das rimas pesadas de Public Enemy e N.W.A. ou do modo entertainer de Run-D.M.C. e Beastie Boys.

Alguns anos depois, com Stakes is High (1996), levou a dinâmica comercial do rap a outro patamar, com rimas autocríticas e pessimistas até.

Em 2016, 12 anos depois de The Grind Date (2004), Dave, Maseo e Posdnuos ainda se mostram inquietos com a forma que o rap é produzido e propagado. “Sempre ficamos por dentro de cada mentalidade dentro da cultura hip hop, mas sempre ouvimos primeiro quem somos e como nós evoluímos quando chega a hora de lançar música”, contou Posdnuos à Billboard. Para um grupo com quase 30 anos de existência, dentro de um gênero que costuma capitalizar tanto, como é o caso do rap, essa declaração mostra que colher o passado e aproveitar o presente não é o bastante.

O De La Soul quis fazer diferente em …And the Anonymous Nobody. Os samplers foram criados, e não extraídos de outros sons. Eles convidaram músicos para fazer a parte instrumental de cada música.

Diante de propostas estéticas tão variadas, o De La Soul chamou músicos de diferentes cenas – a maioria, reconhecida em suas ‘esferas’ criativas.

Logo de início, em “Genesis”, é a cantora Jill Scott quem faz as honras da introdução. “Pain”, já mostrada anteriormente, coloca Snoop Dogg na onda do G-Funk suavizado – só que bem mais dançante que qualquer música do decepcionante BUSH (2015).

David Byrne (Talking Heads) aparece em “Snoopies” num synth-funk retrô que confunde o passado de Fear of Music (1979) com o futuro proposto em Love this Giant (2012). As discotecagens entremeadas aos metais de sax se dissolvem em guitarras. Então, a música se desconfigura como diferentes partes de uma peça teatral. ‘Será que alguma vez vou ficar velho de você?’, questiona, estranhamente como sempre, Byrne. ‘É a juventude elástica’, responde o grupo.

Crítica: De La Soul’s Plug 1 & Plug 2 | First Serve (2012)

Anonymous Nobody também tem participações de Usher (em “Greyhounds”), o rapper 2Chainz (na emulação digital de teclados de “Whoodeeni”) e do grupo de eletropop Little Dragon (na relaxante “Drawn”).

Uma prévia do que pode ser o novo disco do Gorillaz, prometido para 2017, pode estar no som atmosférico de “Here in After”, que mais uma vez assimila o crescendo bem recorrente no indie-rock século XXI. Nela, Damon Albarn se entrega à densidade atmosférica.

Agora, quem gosta de rock mesmo vai se surpreender com a participação de Justin Hawkins, do The Darkness, em “Lord Intended”. Dave contou que a música já estava pronta há dois anos, antes de convidá-lo para gravar a canção. “Nós não conseguíamos achar o indivíduo que poderia tocar nesta faixa”.

A chegada de Hawkins contribui no aspecto diluído. Não é uma colaboração óbvia entre rock e rap; ela é modalizada, às vezes fustigante, às vezes revigorante. Por fim, quando as guitarras tomam a dianteira, o ouvinte finalmente se convence a aumentar o volume.

Nas canções sem participações o De La Soul não foge do aspecto smooth-rap. Em “Royalty Capes”, eles brincam com marchinha, mesclam com o sax pontual da soul-music e criam arcos de tensão que a tornam uma canção épica.

Se Anonymous Nobody se resumisse a uma música, “Royalty Capes” certamente seria a mais adequada. Porque, em mais de uma dezena de participações, experimentações com quebras temporais (vide “Trainwreck”) e escolhas improváveis (tipo a esfuziante “Nosed Up”), o De La Soul ainda é movido pela mesma força que fez de seus clássicos essenciais na discografia do hip hop. Anonymous Nobody é um respiro notável, mas também a expressão híbrida de um trio que não conhece limitações.

Outros lançamentos relevantes:

hateyourmusic: Chá de Morango e Melão (Fiasco Records)
Cass McCombs: Mangy Love (Anti)
David Anthony / Anthony David: The Powerful Now (Shanachie Records)
Derrick Hodge: The Second (Blue Note)
Magic Trick: Other Man’s Blues (Empty Cellar)