“Eu falava pra ele: Itamar, você é um artista póstumo, não adianta”, dizia uma das entrevistadas do documentário Daquele Instante em Diante, que retrata a obra do vanguardista Itamar Assumpção. A personagem questionava sua recusa em fazer concessões para qualquer coisa. Desde aceitar um produtor para conduzir alguns de seus álbuns a ir na televisão apresentar seu som.

Não era fácil ser Itamar, tampouco lidar com ele. O paranaense, que depois se estabeleceu em São Paulo (mais precisamente no bairro da Penha), foi um dos grandes participantes ativos da vanguarda paulistana, que talvez tenha começado com Arrigo Barnabé em 1980 com a Banda Sabor de Veneno – nela, Itamar tocava baixo.

Com um formato caseiro, o diretor Rogério Velloso colocou takes dos familiares e músicos que trabalhavam com Itamar para tentar dar mais claridade à vida e obra obscura de um artista que preferiu ter controle total de sua discografia do que entrar em algum nicho comercial. Por isso mesmo, muitos têm dificuldade de rotular sua música (marca registrada dele, que odiava rótulos de qualquer espécie).

Patrocinado pelo Itaú Cultural, o documentário de 110 minutos faz questão de evitar todos aqueles clichês de que Itamar era um artista ‘maldito’ e ‘underground’ para focar mais em sua complexidade, além de mostrar a visão daqueles que realmente conviveram com o artista. Em um depoimento, sua filha mais nova Anelis (que lançou neste ano Sou Suspeita Estou Sujeita Não Sou Santa) diz que gostaria de ver o vídeo e de lembrar do seu pai como ela o via. Arrisco afirmar que ela teve seu pedido atendido.

Itamar Assumpção já cogitou levar a família para morar na Europa depois de um show que fez em Berlim. Lá, ele era aceito, não era rotulado e ainda ganhava bem pelo que fazia

Depois de gravar Beleléu Leléu Eu, seu primeiro disco e talvez obra-prima, Itamar conseguiu vender mais de 18 mil LPs em três semanas, um número considerável se pensarmos na difícil deglutição de um disco vanguardista até o osso. Ele brigava tanto com seus músicos companheiros que, tempos depois, decidiu que só trabalharia com mulheres. Nesse pique, saiu três volumes de Bicho de Sete Cabeças, só ele e um monte de mulheres em clima ameno e bem descontraído.

Puxando o lado sentimental do artista, Daquele Instante em Diante revela que Itamar era quase obcecado por plantas, principalmente as orquídeas. Segundo os entrevistados, sempre que ele visitava a casa de alguém desconhecido, parecia cumprimentar primeiro as plantas, observava tudo e identificava a maioria delas.

Apesar da suposta doideira, Itamar era um homem de família que gostava de passear pelo bairro para buscar inspirações musicais. Em uma época, chegou a ficar fascinado com as obras de Bob Marley e Miles Davis, dois artistas musicalmente complexos que serviram de influência em toda a carreira de Itamar.

Certa vez, Itamar fez uma viagem que quase alterou drasticamente sua vida. Num show em Berlim, percebeu que era bem mais aceito que aqui (já que só o chamavam de ‘maldito’ por se manter fora do mercado fonográfico) e ficou convicto de que deveria se mudar pra lá. Afinal, lá ele era bem pago, bem aceito e poderia proporcionar uma qualidade de vida muito melhor do que no Brasil, que no momento passava por dificuldades econômicas na era pós-ditadura. Mas, com o tempo, acabou deixando essa ideia pra lá.

Outra novidade é perceber a semelhança que havia entre o sambista Ataulfo Alves e Itamar Assumpção: a procura incessante por algo que transcendesse o ritmo e, de alguma forma, expusesse o ícone do artista diante da obra aproximava esses dois músicos. Itamar bem percebeu isso que gravou um disco só com canções de Ataulfo, intitulado Pra Sempre Agora.

O retrato de Daquele Instante em Diante é bem fiel e a produção (de Paulo Dantas e Carol Dantas), pode-se dizer que beira a perfeição de um documentário musical. A todo momento se ouve alguma canção de Itamar em um momento diferente de sua carreira. Como sua obra praticamente difere bastante uma da outra, fica difícil enjoar das músicas enquanto se adquire informações – reforçando a fala da entrevistada – sobre um dos artistas mais injustiçados da música brasileira.

Confira o trailer: