“Esse cheiro ruim que você tá sentindo vem do ralo do banheiro”, não cansava de dizer o personagem de Selton Melo.

Assim como na película O Cheiro do Ralo, aquele conhecido acessório para drenagem formava o epicentro do cubículo em que se encontra este que vos escreve, mais uma jornalista, Zema (guitarra), Paciência (baixo) e Rafa (bateria) – que formam a banda Ralo. (Não vou falar que o cubículo é um banheiro de camarim do Hangar, uma casa de shows que fica na Zona Norte da cidade de São Paulo.)

Na cena musical desde 2009, a Ralo já tem um EP homônimo disponível no SoundCloud (que você pode ouvir no player abaixo) e está fazendo shows pela metrópole paulistana.

Sugerido pelo guitarrista, o nome Ralo “foi uma sacada no duplo sentido, que pode significar tanto o dreno, existente em todos os lares, quanto a ralação do dia-a-dia, já que nenhum dos integrantes vive exclusivamente da música”, como está lá no perfil do Facebook da banda.

Banda sem vocalista
O Ralo faz um rock instrumental temperado por três distintas influências de cada músico. “Um tem influência de heavy metal, outro de grunge, outro do reggae”, diz Zema. “Cada um vem de um lugar”.

No entanto, aí também reside um ponto em comum, que o baterista Rafa faz questão de revelar: “O rap é um gênero em que gostaríamos de trabalhar mais elementos, porque a banda em princípio era de ter um MC, meio Rage Against the Machine mesmo”. E Zema complementa: “Além do RATM, temos como influência bandas que colocam rap no meio do rock, como Deftones e Korn”.

Antes da banda gravar seus primeiros registros, tentou recrutar um vocalista diversas vezes, mas a agenda nunca era favorável. Portanto, a Ralo ter se tornado instrumental foi mais uma consequência do acaso do que uma ideia inicial.

“Nós não somos uma banda instrumental”, entrega Paciência “Na verdade, somos uma banda que não tem vocalista”.

Horse Music
Disponível na rede desde 2009, o EP Ralo tem um total de cinco faixas cheios de peso, que a banda gosta de classificar como ‘horse music’. Os riffs de guitarra dão o alinhamento das faixas e funcionam como marcações para as histórias escondidas por trás de canções com nomes nada convencionais – como “PegaoTripéDoido (Não)” e “Carpaccio”.

“Nos preocupamos em estruturar uma música como se ela fosse uma história, mas não uma história muito longa”, define Rafa.

Com o boom da música instrumental desde que Artista Igual Pedreiro, do Macaco Bong, foi reconhecido como o disco do ano pela Rolling Stone em 2008, as comparações com o grupo instrumental de Cuiabá são inevitáveis. “Eu acho legal até porque eles foram pioneiros no rock instrumental por aqui”, confessa Rafa. “Mas sei que não tem muito a ver. Às vezes uma sonoridade ou outra pode até remeter”.

O peso é parecido, mas o som da banda Ralo é mais linear e com menos intercalações sonoras que o Macaco. Ali existe um início, meio e fim bem mais definido. “Procuramos fazer música com introdução, ponte, meio que um refrão, fim”, explica Paciência. “É um som matemático, bem estudado”.

“Procuramos fazer música com introdução, ponte, meio que um refrão, fim. É um som matemático, bem estudado”, define o baixista Paciência

EP Cercados
Por mais que o rock seja a veia pulsante do trio, a Ralo pretende trabalhar novos elementos em suas faixas, como colocar solos de instrumentos metálicos, uma parceria com MC, talvez uma colagem. “Não só vocal, mas também DJ, outra guitarra, notas de trompete, a gente quer é experimentar coisas”, diz Zema.

Especulações estéticas à parte, a banda pretende lançar em um futuro próximo o EP Cercados. Algumas faixas ainda não divulgadas pela internet devem entrar, como é o caso de “Slot” e “Sombra”, que a banda executou no Hangar para uma plateia sólida que entrava aos poucos para conferir os shows principais da noite: as bandas Medulla e Rancore.

Aos poucos as coisas se sucedem para a banda de rock instrumental de São Paulo. Só não pode entupir, senão é sujeira pro Ralo.