O hip hop de vez em quando parece estar em declínio, mas muita coisa boa por baixo dos panos ainda acontece.

Naturalmente ligado à bagunça sonora – o que soa como um elogio -, o hip hop muitas vezes se sai melhor quando procura o indistinguível, sem deixar de lado o bom humor e pequenas doses de anarquia sonora.

Poucos conseguem fazer isso com êxito – e aqui cito Shabazz Palaces, parente direto do Digable Planets que embaçou os olhares dos apreciadores do gênero no ano passado com o lançamento do excelente Black Up.

Outro membro potente desse tal ‘hip hop underground’ é Danny Brown.

Os motivos são inúmeros: ele tem uma dicção atropeladora, tem composições engraçadas e, o que mais pode chocar, lançou o primeiro disco aos 30 anos (XXX, 30 em números romanos: esse título já dá uma prévia do impacto que essa idade tem no gênero).

Danny ainda não é ‘tiozinho’, como muitos fãs poderiam denominar; na verdade, a idade só mostra que a maturidade é essencial para melhor trabalhar sua ‘verve juvenil’.

Nem Snoop Dogg, nos primeiros anos de carreira, conseguiria criar um climão sinistro com letras indiretas em “Blunt After Blunt”, que segue em um clima pesado como uma bigorna, mas não chega a assombrar o ouvinte a ponto de deixá-lo com medo. Se fosse lançada nos anos 1990, talvez, Danny atuaria como coadjuvante ao lado de NWA, Dr. DRE ou Notorius B.I.G.

No entanto, algo transgressor não soa como mau exemplo para Danny Brown. Tudo isso faz parte da vida de quem quer desanuviar, independente do contexto político. Há momentos em que ele coloca óculos de intelectual. Em “Pac Blood”, ele cita Shakespeare aos 16, Leonardo Da Vinci e até diz que suas rimas têm poder de fazer com que Gandhi fale m*rda. Prova de que pode brincar com símbolos da inteligentsia ou prova de que nada é obstáculo para o rap?

Azealia Banks piraria com a base de “Radio Song”, mas jamais teria coragem de confrontar artistas (RZA, P. Diddy) e gravadoras com uma letra rápida e direta. Todos sabemos que um artista para se dar bem precisa de um hit que vá para as rádios, mas por que raios um músico desconhecido do público teria a insolência de criticar um sistema que, provavelmente, possa fazer parte em um futuro não muito distante?

Quando foi lançado no ano passado, XXX ficou em segundo plano. Graças à SPIN Magazine, que o nomeou o melhor disco de rap de 2011, os olhares voltaram para seu trabalho.

O jornalista Paul Lester, do The Guardian, comparou XXX a Swordfishtrombones (primeiro de Tom Waits) e Trout Mask Replica (disco mais experimental de todos os tempos, de Captain Beefheart) do hip hop.

Para mim, Danny Brown é uma luz que brilha do underground. No player acima, dá pra ouvir o disco XXX na íntegra.