
01 Wave 02 The Red Blouse 03 Look to the Sky 04 Batidinha 05 Triste 06 Mojave 07 Diálogo 08 Lamento 09 Antigua
10 Captain Bacardi
Gravadora: A&M
Data de Lançamento: segundo semestre de 1967
Se tem um gênero brasileiro tradicional que não precisa mais ser revivido é a bossa nova. A cada dois ou três anos o ritmo brasileiro de maior respeito internacional na história é repetido, retomado e desgastado nas novelas de Manoel Carlos e em uma ou outra coluna que acredita na volta de João Gilberto aos palcos.
A batida e a sua representatividade já encheram páginas de cadernos especiais e renderam alguns acessos à blogosfera (inclusive este site).
Portanto, não é preciso apresentar todo o gênero para falar de Tom Jobim. Perda de tempo.
É pra quem já está de saco cheio de todo esse blábláblá de bossa nova que recomendo a audição de Wave, quarto álbum solo do compositor. Contraditório, não? Mas é a melhor forma de ouvir o gênero sem escorregar em babações.
Apesar de ter temas instrumentais em sua maioria, Wave registra um sentimento de saudade do Brasil que abateu o maestro alguns meses antes de gravar um disco em parceria com Frank Sinatra (Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim, também de 1967). Ele já havia partido para os Estados Unidos em oportunidades anteriores, incluindo o ‘show fracassado’ organizado no Carnegie Hall.
Claus Ogerman é quem cuidou dos arranjos de um álbum que, além de sentimental, exibe possibilidades melódicas que ainda não haviam sido testadas dentro do contexto bossa nova.
Tudo bem, o frisson já havia acabado, principalmente com a chegada estrondosa do movimento Tropicália, que tomaria de assalto os festivais de música na televisão brasileira (e faria o público vaiar os representantes antigos da bossa nova). Mas o que Wave propõe transcende a simples alcunha de gêneros musicais.
Com o auxílio no baixo de Ron Carter e flauta de Ray Beckenstein, Tom Jobim assume o piano e o violão como se tivesse criando uma geografia musical própria dentro dos estúdios Rudy Van Gelder, em Nova Jérsei (EUA).
A faixa-título, que ficou bem conhecida pelo verso ‘é impossível ser feliz sozinho’, foi apresentada pela primeira vez como tema instrumental. É o piano que faz aquela linha de amor otimista que já serviu de trilha pra muita novela global.
Densa, “Batidinha” tem na orquestração a força de se sustentar pela sofisticação de Tom Jobim no violão, sem deixar de mencionar o conjunto de violinos e violoncelos colocados de forma sutil, mas ainda com forte carga emocional. Coisa de Ogerman, com pitacos de Jobim, claro.
Todos os temas do disco foram compostos por Tom Jobim – apenas “Lamento”, a única com vocais no disco, foi escrita com o eterno parceiro Vinicius de Moraes. Ela já era de conhecimento do público, além do tema de “Look to the Sky”, uma das mais representativas trilhas cariocas já compostas. Quem passeou pelo Corcovado, pelos morros ou pelas praias do Rio de Janeiro vai associar a melodia na hora.
As demais são todas inéditas. Como “Mojave”, que parecia colocar o ritmo brasileiro em uma escala modal, contribuição que Carter trouxe ao músico devido seu convívio com Miles Davis. E a notável “Triste”, onde o piano quebra a melodia sugerindo uma luz no fim do túnel.
Wave é um disco que não sai da esfera muito bem pincelada por Jobim naquele momento. Um dos poucos exemplos em que ele se permite sair desse eixo podemos ouvir em “Antígua”: a sonoridade do harpsicord garantiu efeitos que o fazem flertar com a world music. Claro que a linha melódica entrega traços do que depois seria definido como ‘jobiniano’, mas “Antígua” deu naquele momento uma pequena brecha do que o maestro exploraria anos mais tarde em Matita Perê (1973) e Urubu (1975), que marcariam uma nova fase na carreira do compositor. (Se gostar do som do harpsicord, vá atrás deste disco.)
Por mais que Wave seja um disco de bossa nova, é um registro fora do timing. O gênero já não era mais adorado pelas massas e a crítica musical voltava-se para outras manifestações musicais que aconteciam naquele momento (além da mencionada Tropicália, havia música de protesto e Jovem Guarda acontecendo naquele momento).
É a falta de representatividade que fortalece o disco que melhor resume Tom Jobim à imagem que mais lhe é associada.
Wave não precisou ser um marco para ser um clássico. A meritocracia do disco é toda musical.
É este o disco que indico aos avessos à bossa nova. Porque você pode continuar não gostando do gênero, mas não pode deixar de ouvir o álbum que mais a embelezou. Sem querer e sem pretensão alguma. Talvez, só por saudade.
