O guitarrista Robert Fripp, líder do King Crimson

Mudança sempre esteve em pauta na carreira do King Crimson, uma das principais bandas de rock progressivo que, em diversos momentos, partiu para explorar ritmos diversos como jazz, fusion rock, música eletrônica, new wave, hard rock e muitos outros.

Ainda que seja um pequeno fragmento da extensa obra do King Crimson, Discipline foi um disco crucial para a nova fase oitentista da banda

No oitavo disco, Discipline, o guitarrista e eterno membro do grupo, Robert Fripp, decidiu retornar de um hiato de sete anos com uma formação totalmente reformulada que, além dele, contava apenas com o baterista Bill Bruford como integrante original. Eles chamaram os já experientes Adrian Belew (guitarra-base, já havia tocado com Frank Zappa e Talking Heads) e Tony Levin (baixo e chapman stick, instrumento de dez cordas em formato de uma vara, que faz uma sonoridade mais elétrica) para complementar o Crimson e gravar um dos discos mais consistentes do grupo.

Em uma primeira audição, Discipline impressiona por dar a sensação de ser algo amarrado, assim como remete a capa do disco. “Elephant Talk” abre com um jogo de palavras nos vocais de Adrian Belew, encobertas pelo funk espacial das guitarras de Fripp e os efeitos sincrônicos do chapman stick de Levin. ‘It’s only talk: babble, bourbon, banter, bicker…’: as palavras são jogadas para dar um sentido controverso e psicodélico. A instrumentalidade ferve: Fripp alterna slide guitar com suas habilidades invejáveis nos synths, mostrando que a singularidade do King Crimson ainda depende de sua criatividade.

Ainda que muitos críticos da época tenham feito uma conexão deste disco com a new wave, a banda segue por um processo criativo diferente – mas ainda pautado pelas engenhocas instrumentais de Fripp e, melhor ainda, ganhando o reforço de Levin na aparelhagem eletrônica. Discipline é um álbum de pulsações repleto de contrapontos estéticos que em alguns momentos supõem a velocidade e a disciplina (“Frame by Frame”) ou a indisciplina e calmaria (“Matte Kudasai”). Contrapontos que se contrapõem, mais ou menos isso.

O fusion rock come solto em “Indiscipline”, criando um diálogo com a também virtuosa banda Mahavishnu Orchestra. Já a faixa-título, “Discipline”, que encerra o disco, tem uma síncope tribal proporcionada pelo baixo/bateria, enquanto Fripp se liberta para ponderar solos estilhaçantes que forçam um diálogo entre o blues e rock progressivo, por mais eletrônicos que eles possam parecer.

Em “Thela Hun Ginjeet”, anagrama para o termo ‘heat in the jungle’ (‘calor na selva’), o King Crimson continua apostando na velocidade com diversas veias experimentais nos instrumentos de corda. É a canção mais errática de Discipline. A sequência vem com “The Sheltering Sky”, com uma instrumentalidade mais aguda graças ao sistema Frippertronics do principal membro do grupo. Ele forma um diálogo esquizofrênico – mas bem entrelaçado – com o chapman stick de Tony Levin.

Ainda que seja um pequeno fragmento da extensa obra do King Crimson, Discipline foi um disco crucial para a nova fase oitentista da banda. Apresenta um grupo solidificado e inovador, deixando um gostinho de quero mais com suas 7 faixas e menos de 40 minutos de disco. É daqueles álbuns de cabeceira para quem gosta de aventuras sonoras.

Ouça todas as faixas de Discipline:

1. “Elephant Talk”

2. “Frame by Frame”

3. “Matte Kudasai”

4. “Indiscipline”

5. “Thela Hun Ginjeet”

6. “The Sheltering Sky”

7. “Discipline”