Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 7 de abril de 2015

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Com o pé na maturidade e outro no destemor em partir para novas jornadas sentimentais, Pélico é daqueles compositores de despertar inveja nos zilhões de novatos que tentam vagamente falar de descompromisso.

Euforia é o álbum inatingível para esses tipões, porque denota a sofisticação no simples.

Parte da lapidação musical de Euforia, obviamente, remonta ao sax de Tato Cunha – que abrilhanta “Sozinhar-me”, neologismo a partir de uma obra de Mia Couto – a densidade da guitarra de João Erbetta – especialmente na melancólica “Escrevo” – e o cavaquinho de Rodrigo Campos, que puxa o samba bem executado de “Você Pensa que Me Engana”.

A predominância de um clima alegre joga a favor no trânsito de musicalidades: bossa new-wave, frevo, valsa e até samba integram o disco

No entanto, como é costume na obra de Pélico, composição é a chave. E a grande contradição de Euforia é mostrar que nem só de momentos alegres vive o homem. Euforia é estado de espírito, e é isso que mantém a égide do disco.

O que conecta a ingênua complacência de “Vaidoso” ao orgulho refratário de “Overdose” é o pulsar enérgico. Ao falar de ciúme e atos violentos, Pélico mantém-se no mesmo tom de quando menciona algum desejo retraído, ou de algum amor na esquina.

É na musicalidade fornecida pela banda que o cantor se apoia. Isso denota duas características aprimoradas neste trabalho: primeiramente, uma certa dependência desse aparato estético, o que tem se provado contraproducente para artistas não tão conhecidos, visto que dependem dos mesmos músicos; por outro lado, exibe uma nova dinâmica em seu som, lhe garantindo mais pontos em quesitos importantes como personalidade e coerência musical.

Há escorregões, claro, como a descartável “O Meu Amor Mora no Rio”, cuja associação do compositor reforça os clichês que sustentam a antítese Rio versus SP (‘São Paulo tá cheia e eu tão vazio‘ cairia bem num outro tipo de composição).

A predominância de um clima alegre joga a favor no trânsito de musicalidades: chega à bossa-new-wave em “Ela Me Dá”, instiga o frevo em “Sozinhar-me”, chama para a valsa em “Meu Amigo Zé” (homenagem a Tom Zé) e cai de prontidão no mencionado samba “Você Pensa que Me Engana”.

Mais que mera jovialidade do compositor, Euforia aponta o bom-humor ideal do cidadão médio. Para Pélico, cada momento tem lá sua felicidade, e se não é possível ser alegre o tempo inteiro, tudo numa boa, afinal, a melancolia também contribui no longo processo de aprendizado que é viver.