Gravadora: Tambourhinoceros
Data de Lançamento: 26 de janeiro de 2015
Jazz, rock, folk, eletrônica: todos estes gêneros, grandemente explorados no circuito pop, tem significativa força na música dinamarquesa. Há poucos nomes identificáveis desse circuito aos menos afeiçoados – mesmo entre os maiores conhecedores da música de lá, o nome Frisk Frugt gera estranheza.
Domado pelo multiinstrumentista Anders Lauge Meldgaard, que toca pelo menos uns 12 instrumentos em seu terceiro álbum, Den Europæiske Spejlbue, o Frisk Frugt assimila numa estrutura avant-garde todos os gêneros mencionados no início do texto. Na verdade, avant-garde porque costumamos a chamar assim aquilo que é desconhecido no mundo pop. Porque, por mais que nos deparemos com um trabalho experimental, estamos diante de um álbum que estabelece uma ponte entre o folclórico e o psicodélico.
Isso faz de Den Europæiske Spejlbue um trabalho transitorial: temos quase seis minutos dum folk cátedro em “Jeg Havde Ikke Ventet At Se Det Pa Tidligt Et Tidspunkt” e riffs flamejantes de teclado que se assemelham às notas mais estridentes de Oren Ambarchi em “Solbombe I G”.
Em Den Europæiske Spejlbue vemos a confluência do avant-garde tépido europeu adentrar a tradição barroca e clássica do continente
Se no ótimo disco anterior, Dansktoppen Møder Burkina Faso i det himmelblå rum hvor solen bor, suite (2010), o Frisk Frugt trazia um tanto das influências da música que permeia parte do chifre africano, em Den Europæiske vemos a confluência do avant-garde tépido europeu adentrar a tradição barroca e clássica do continente. Essa invasão soa pilhérica em alguns momentos, pois presenciamos um versado experimentador acachapar o mais conservador meio musical com uma destreza de questionável humor.
Seriam os backing vocals de “Sol Og Mane” uma afronta? O que a clarividência orquestral de “Kærlighedssang Nr.?” antecipa: um joguete campestre ou a contradição entre mandolins e guitarras como uma batalha do bem contra o mal?
Da música anglo-saxã atual, podemos dizer que essa ponte do segundo para o terceiro disco se assemelha com a passagem do These New Puritans de Hidden (2010) para Field of Reeds (2013). Se for assim, o Frisk Frugt está à léguas de distância, obviamente: longe de se estupefazer com as possibilidades de um único instrumento, sax-barítono, clavinetes, teclados MIDI e até garrafas de vinho compõem o híbrido sinfônico-experimental do grupo dinamarquês, que conta com quase uma dezena de colaboradores.
Den Europæiske Spejlbue não exibe nenhuma tentativa de gerar compreensão, multiplicando o fator instigante de sua audição. No ensaio folk de “Lysflimmer I Vandet”, flautas, mandolins e bassoons parecem acompanhar uma breve jornada ao paraíso. Os violinos de Nils Gröndahl fogem da precisão e surgem paulatinamente desafinados, sugerindo que o incômodo também tem que estar presente num momento supostamente de paz.
“Fuglens Flugt” é Robert Wyatt comunicando com alienígenas num pasto verde, onde a convergência de violino e teclados MIDI subvertem o lúdico e beiram o insano.
Difícil também é não lembrar de um certo Terry Riley quando nos deparamos com diversos fragmentos do disco, seja em algumas notas perdidas de “Solhyldest 1. Del” ou numa das muitas transições de “Omd…” (Peraí, já vamos falar dela, mas com outra perspectiva.)
Como é costume da grande maioria dos discos desde mil novecentos e bolinha, o Frisk Frugt também recorre ao clichê de deixar para a última faixa um take de mais de 15 minutos. Geralmente essas últimas canções transbordam o experimentalismo retraído do decorrer do disco – algo completamente descartado em Den Europæiske… pois falar de experimentalismo nas predecessoras 11 faixas soa um tanto rebarbativo.
“Omdrejningsmusik Solens Mekanik” inicia como um drone, esbarra no post-rock, brinca com as possibilidades da música carnática e atropela como as cáusticas orquestras à lá Swans num noise-rock desbravador. Não é comum ao Frisk Frugt, justamente porque comum está fora do dicionário de seu líder, Meldgaard, e nem deve aparecer tão cedo.
