Gravadora: Text
Data de Lançamento: 21 de junho de 2015
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A indiana Lata Mangeshkar é conhecida como Rainha da Melodia porque complexifica os temas abordados nos filmes em que colabora, com sua voz espiritualmente confortante e, ao mesmo tempo, intrigante.
Lata representa a “era de ouro” das trilhas sonoras da Índia – e a deferência ao seu legado, no Oriente, é viva nestes mais de 60 anos de carreira.
A opção de Kieran Hebden em extrair os vocais de Lata em “Morning” fogem de tudo aquilo que erroneamente associam à folktrônica, o sui generis do Four Tet. No filme Souten (1983), a trilha “Main Teri Chhoti Behana Hoon” (algo como Eu sou a sua pequena desculpa em hindu) é envolta a uma estrutura orquestral-lírico-percussiva, que clama por emoções.
Em “Morning”, Four Tet deixou que prevalecesse o senso espiritual da mera entoação da cantora. As batidas dubstep ao fundo invadem e tomam o espaço da melodia. Distorcendo, aos poucos o produtor forma o eixo de seu ambient híbrido e pacificador.
Morning/Evening não é repetitivo, apesar da repetição ser um recurso: digamos que é um buraco de minhoca
Perde-se, então, o folk. Pois o campo musical adornado pelo Four Tet até pode ser dissolvido, mas não é justo negligenciar que perdurou por mais de 6 minutos, tempo suficiente para que alguém abandone a vontade de ouvir a canção, primeiramente disponibilizada no BandCamp.
A permanência da voz de Lata Mangeshkar recobra a fluência da estrutura orgânica na eletrônica – algo que o Burial também apresentou na já épica “Come Down To Us”, com a diferença de que focou no desenvolvimento rítmico.
A segunda metade da canção “Morning” não abandona de imediato o louvável achado estético. Isso não seria autocelebração? Talvez, não fosse o prazer emocional que o ouvinte é convidado a testemunhar.
As variações em loopings, joguetes e sinalizações dão efeito circular. Ou seja, a qualquer momento Hebden pode retornar à limpidez sonora para, novamente, deixar que a voz de Lata se sobreponha. Não é repetitivo, apesar da repetição ser um recurso: digamos que é um buraco de minhoca.
Se a teoria científica abordada no filme Interestelar (2014) for aceita, então “Evening” é o limbo, a viagem, exploração. As batidas parecem a movimentação de pequenos corpos e os synths pausados aos poucos se reverberam, como se passasse por uma tubulação cósmica. Onde Four Tet chega? O ouvinte não faz ideia – a perplexidade é semelhante ao que os personagens de Matthew McConaughey e Anne Hathaway passam a cada tentativa de encontrar um planeta habitável.
Pouco se associa entre os formatos de “Morning” e “Evening”, por isso, entende-se a decisão de manter os nomes dos singles no título, em vez de estabelecer uma unidade.
Essa unidade é singela, mas existe: Morning/Evening contrapõe longínquos dogmas humanamente internos (espiritualidade) e externos (espaço), numa estrutura tão orgânica quanto nossa capacidade de associações.
