Gravadora: Island

Vou resumir bem o que significa a coletânea de inéditas Lioness: Hidden Treasures, de Amy Winehouse: é apenas um registro complementar de sua curta discografia. Tem primeiros takes de canções famosas como “Tears Dry On Their Own” – aqui, apenas como “Tears Dry”, numa versão mais melosa que se perde entre o gospel e aquela música de fim de balada – e uma versão mais crua, quase folk, de “Wake Up Alone”, dois dos grandes hits de Back to Black.

A primeira faixa, “Our Day Will Come”, é levada pelo reggae com belas passagens no órgão. Gravada em 2002, a versão de Amy do hit de 1963 do Ruby and the Romantics traz resquícios de força nos vocais da cantora, que seriam bem aprimorados em Back to Black com toda aquela roupagem doo wop. Porque ficou de fora de Frank, fica difícil saber, já que a faixa é muito boa.

“Our Day Will Come”

“Between the Cheats” foi gravada originalmente em 2008 e estava cotado pela cantora para entrar num disco de inéditas. Percebemos o som característico dos Dap-Kings (doo-wop retrô, com forte pegada rítmica nos pianos), mas aqui Amy decidiu buscar ainda mais referências da música sessentista, com backing vocals melancólicos ao fundo. Outra grata surpresa é a faixa “Halftime”, que ficou perdida nas gravações de Frank. É nela que está a frase que inspirou seu primeiro disco: ‘Quando Frank Sinatra canta, ele pacifica minha dor’, confessa na canção.

A versão para “The Girl From Ipanema” é levada por baterias mais pulsantes, reflexo da interferência da essência musical jazzística norte-americana na calmaria da bossa nova. Talvez a velocidade tenha sido muito forçada. A voz de Amy ficaria muito melhor se fosse suavizada. Mas, vamos dar um crédito: ela ainda não tinha a expertise de agora (já que foi gravada em meados de 2002) e a canção não estava totalmente finalizada.

O melhor que se pode extrair de Lioness: Hidden Treasures é o belo dueto com o rapper Nas em “Like Smoke”. Ambos os artistas nasceram no dia 14 de setembro, mas deixaram veemente a diferença de influências musicais. Amy volta lá pros anos 50, enquanto Nas retoma os tempos de agrura de Illmatic com versos como ‘mais gelado que a buceta de uma pinguim’. Segundo o produtor Salaam Remi, foi a própria Amy quem sugeriu que ele colocasse estes versos. Não é só desolação, Amy também é diversão.

“Like Smoke” (ft. Nas)

“Body and Soul” dispensa apresentações. Neste lindo dueto com Tony Bennett, ela apenas reforça sua posição old-fashioned perante o mercado fonográfico. Duas gerações diferentes que se encontram numa balada de choramingar.

Se já lembrávamos perfeitamente de Amy com os discos Frank e Back to Black, Lioness veio apenas para confirmar aquilo que já sabíamos: com poucos exemplos, ela mostrou que tinha potencial de sobra. Pena que foi-se muito cedo.

Melhores Faixas: “Our Day Will Come”, “Like Smoke”, “Body and Soul”.

Update: Havia um erro crasso neste texto. Antes, ao mencionar o álbum ‘Back to Black’, estava referindo-o como ‘Rehab’, quando, na verdade, este último é o nome da música de sucesso do disco em questão. Graças a um leitor deste blog, o erro foi corrigido. Mil desculpas aos leitores.