Gravadora: Candid
Data de Lançamento: 2º semestre de 1960
Assim como Thelonious Monk, Cecil Taylor se baseava em tempos percussivos para tocar piano.
Enquanto Monk seguia uma linha mais próxima do stride de Duke Ellington e Count Basie, Taylor teve influência da música clássica contemporânea (estudou, entre 1951 e 55, no New England Conservatory Music). Seu direcionamento jazzístico, entretanto, foi bastante influenciado pela forma com que Chick Webb tocava bateria nos grupos em que liderou.
O primeiro disco do pianista, Jazz Advance (1956), mostrava afeição ao blues com forte característica bebop. Looking Ahead! (1958) e Love For Sale (1959) mostram Cecil em desenvolvimento do estilo caracterizado por clusters (ataques simultâneos na mesma nota), mas ainda à procura de encaixar as formas com que rompia tempos musicais no contexto de um quarteto.
Com o lançamento de The World of Cecil Taylor (1960), o músico daria largos passos à frente na concepção de um álbum atonal e polirrítmico.
A bateria de Denis Charles em “Air” é impactante ao anunciar a entrada de Cecil, que entrega clusters ritmicamente variados. Suas pancadas no piano contornam estilos e escolas. A entrada do sax tenor de Archie Shepp é salutar, por introduzir a dinâmica musical cheia de calor que posteriormente figuraria nas obras mais emblemáticas do free-jazz.
Cecil Taylor controla as variações musicais. É como se ele já estivesse pronto para o que representava aquele novo salto de vanguarda após Free Jazz (1960), de Ornette Coleman
Lançado no mesmo ano do revolucionário Free Jazz (1960), The World of… não tinha nenhum paralelo com discos anteriores ao movimento iniciado por Ornette Coleman. Alguns registros do álbum representavam ruptura de padrões jazzísticos e isso se desencadeava, principalmente, na forma com que Cecil Taylor delineava as notas de seu instrumento. Elas eram chacais, porque, antes mesmo do ouvinte achar que a nota seguinte seguiria determinada direção, o músico já havia antecipado com radiante precisão.
“Port of Call” possui elementos-chave para entender onde Cecil queria chegar. O tema começa com um solo entrecruzado: em alguns momentos, parece que estamos nos deleitando com cuban-jazz; não se percebe, porém, quando os ataques de notas aproximam-se às inovações de Béla Bartók, por exemplo.
O acompanhamento de Denis Charles e do baixista Buell Neidlinger exemplifica o que significava a liberdade de composição para o bandleader antes da assimilação direta do free-jazz: em The World of…, baixo e bateria serviam mais como base de acompanhamento que experimento.
Então, entende-se melhor a acepção do título: estamos no mundo em que Cecil Taylor controla as variações musicais. É como se ele já estivesse pronto para o que representava aquele novo salto de vanguarda.
Não que os demais músicos estivessem travados. Já em “E.B.” é possível perceber mais soltura na base rítmica. Claro que a alta dosagem de swing imposta pelas notas de piano instigam performances variadas de Denis e Buell – mas levaria alguns anos para que Cecil Taylor chegasse ao ápice da química fortemente ligada ao free-jazz – algo que conseguiu com Unit Structures (1966), com o baixista Alan Silva, o saxofonista Ken McIntire, entre outros.
Archie Shepp, também um dos principais expoentes do free-jazz, ressurge novamente com o tenor em “Lazy Afternoon”. A forma com que Cecil desenvolve o tema lembra música de câmara. Ele valoriza clusters com viés melódico, mostrando que, assim como a música percussiva africana, a música europeia também tinha forte presença em seu estilo. Nesta canção, Shepp contribui com notas bluesísticas, no melhor estilo Lester Young.
Não havia barreiras; mesmo explorando um mundo mais complexo que deliberadas sucessões de notas, em The World Of… Cecil Taylor estava apenas no começo.
