
É muito fácil ser crítico musical hoje em dia. Eu mesmo sou uma prova viva disso – nunca trabalhei na imprensa musical e disparo meus comentários a rodo sobre o que é lançado. Até aí, tudo bem. Mas quando digo que é ‘fácil’, é porque muitos adoram utilizar termos modernos para criar uma unidade por vezes inexistente em toda a produção musical.
E qual o termo mais defasado da atualidade senão o indie? Inicialmente empregado para mencionar bandas de selos independente nos anos 80, o termo indie agora virou desculpa para rotular tudo que se produz no universo do rock mais melancólico, intimista, até mesmo flagelado.
Alguns críticos, muitos deles brasileiros, o utilizam para tudo. Não quero citar nomes, mas já me causou estranheza associar o termo indie a músicos que não têm nada a ver com a cena. Cito dois, só como exemplo: Animal Collective (que faz um som experimental/psicodélico meio subaquático, como já disse certa vez o Pitchfork) e o The Streets (produtor que faz algo similar ao hip hop com batidas trip hop e interlúdios vocais, reflexo da influência de Gil Scott-Heron).
Outros grupos podem muito bem se encaixar nessa rotulação, como já defendi nas redes sociais: pode colocar na lista aí Arcade Fire, Arctic Monkeys, Franz Ferdinand, Deerhunter e alguns outros. Mas a lista não é tão imensa quanto imaginam. Tudo bem que o ritmo está praticamente atingindo um certo enjoo, visto a fórmula repetida desde que o britpop invadiu as principais rádios.
Inicialmente, o indie tal qual o conhecemos veio como contraponto ao rock alternativo que estava em voga nos anos 90, principalmente com o estouro do grunge. Acredito que os primeiros a romper com esse ritmo absurdamente mercadológico naquela época foram os integrantes do Pavement, o Weezer e, em outra corrente, o Radiohead. É como se eles tivessem antecipado toda essa cena dos anos 2000.
Mas o próprio Radiohead hoje em dia, por exemplo, já correu do indie antes que qualquer associação fosse disparada. Para se ter uma ideia da superficialidade do termo, até mesmo os Strokes estão enquadrados nessa rotulação (Strokes que faz um revival do rock setentista, com claras influências do punk). Talvez porque sejam um bando de garotos comportados. Mas, espera aí, quer dizer que comportamento determina o ritmo agora?
Confundiram as bolas. Tudo é indie agora. Se você não bebe, não fuma, não cheira e não fode, você é indie. É cool ser careta – essa é a conclusão que pode se tirar de tudo isso. Quiçá até Amy Winehouse seria indie não fosse seus escândalos ininterruptos.
Ainda bem que David Bowie decidiu retirar-se de cena. Senão, coitado, iriam dizer que em todos esses 40 anos de carreira o camaleão do rock teria sido indie.
(Imagem retirada daqui.)
