A humanidade de Nina Simone está acima de sua musicalidade. O documentário What Happened, Miss Simone?, dirigido por Liz Garbus e já disponível no serviço de streaming on-demand Netflix, estabelece o contrabalanço artístico da cantora, que se destacou mais por seu ativismo na luta pelos direitos civis, nos anos 1960, que pelo impacto de suas canções.
Para o espectador, tudo fica entrelaçado. A frustração entoada em canções como “Old Jim Crow” e “Don’t Smoke in Bed” soam banais ante uma trajetória rondada por decepções artísticas.
Nina começou a tocar piano aos 4 anos e teve ensinamento rígido com Muriel Mazzanovich, aprendendo a emular mestres como Bach, Liszt e Brahms. Por volta de 1954, depois de estudar por um período de férias na consagrada escola de Juilliard, ela tentou ingressar no disputado Curtis Institute of Music. Foi rejeitada, talvez por simplesmente ser negra. A partir de então, passou a tocar em pequenos bares para sobreviver, mas conviveu com o vazio de não ser a primeira pianista negra a realizar um concerto de música clássica.
Nina Simone chegou a clamar pela luta armada. Citando poema de David Nelson, dos Last Poets, disse: ‘Vocês estão prontos para matar, se necessário? Vocês estão prontos, negros?’
Foi nesse período que a então garota, cujo nome de batismo era Eunice Waymon, subiu degraus de maturidade, mas não quis constranger sua família com a reputação que passou a construir. Eunice, então, tornou-se Nina Simone.
Depois do relativo sucesso comercial ao interpretar clássicos como “I Loves You, Porgy” (Ira e George Gershwin) e “Love Me or Leave Me” (Gus Kahn/Walter Donaldson), Nina passou a ter uma ascensão meteórica devido aos esforços, como produtor, de Andrew Stroud, com quem se casou em 1961 – tanto que, no documentário, diversas vezes vemos Nina reclamar “Andrew não me deixa descansar”, ou “Andrew só quer que eu trabalhe, trabalhe”.
As pressões por parte de Stroud, na verdade, foram além da conta: ele batia nela, mas não pelos motivos que suspeitamos que motivavam, por exemplo, Ike a violentar Tina Turner. A relação de Nina Simone com a violência, para Stroud, era patológica: “acho que ela gostava de apanhar”, chega a declarar. Isso, de certa forma, se correlaciona com alguns dos acontecimentos mais importantes na vida de Nina Simone, ainda que não justifique a crueldade por parte de Stroud.
Na luta pelos direitos civis na primeira metade dos anos 1960, em que se destacou como uma das principais ativistas, Nina Simone chegou a clamar pela luta armada, como citou em uma apresentação no Harlem, em 1969. Citando um poema de David Nelson, do grupo literário Last Poets, disse: ‘Vocês estão prontos para matar, se necessário? Vocês estão prontos, negros?’. Esse nível de beligerância tem como pano de fundo a repressão norte-americana contra líderes do movimento negro, culminando nas mortes injustificadas de Martin Luther King Jr., Malcolm X, Fred Hampton (dos Panteras Negras), entre outros.
Foi o fim do ‘sonho americano’ para Nina, que incorporou como nenhuma outra cantora a real força do movimento. Sua proximidade com a escritora Lorraine Hansberry foi produtiva, motivando-a a compor o clássico “To Be Young, Gifted and Black”, com Weldon Irvine. Amplificando a voz para canções de protesto como “Revolution” e “Backlash Blues”, ela conquistou o holofote do público, mas foi perdendo a credibilidade com produtores e managers, que passaram a vê-la como ‘incitadora’.
O disco In Concert (1964) é documento importante dessa transição artística de Nina: ela inicia refazendo o repertório clássico, com “I Loves You, Porgy”, até canalizar toda a raiva diante dos conturbados acontecimentos daquele período, em “Mississipi Goddam”, canção em que não mede palavrões para denunciar o triste ataque de membros da Ku Klux Klan local, que assassinou três membros do Congresso da Igualdade Racial do estado. Naquele momento, a tensão estética entre a técnica de piano de Gershwin e a representatividade feminina de Billie Holiday encontrou o maior ponto de fricção na obra de Nina Simone.
Por conta desse envolvimento ideológico, Nina parou de ceder às pressões de Stroud em participar mais e mais de festivais grandiosos de jazz, para se tornar cada vez mais conhecida. O documentário de Garbus insiste na importância de Stroud como empresário, mas não diminui o tom ao apresentá-lo quase como uma autoridade, uma figura a temer – afinal, ele era aposentado da polícia que combatia o narcotráfico. “Eu tinha muito medo dele”, confessou Nina.
A tensão estética entre a técnica de piano de George Gershwin e a representatividade feminina de Billie Holiday encontrou ponto de fricção na obra de Nina Simone
Não foram os espancamentos, entretanto, que levaram a cantora à súbita decisão de partir para a Libéria, em 1974. Com tom irado, Nina revelou que as mortes das lideranças acabaram com a luta pelos direitos civis. Em 1991, ela escreveu: “Com [o então presidente Richard] Nixon na Casa Branca e a revolução negra substituída pela disco-music, a América com que sonhei nos anos 1960 me pareceu uma piada de péssimo gosto”.
A vontade de escapar de tudo aquilo era tão imensa, que Nina viajou sozinha e deixou a pequena Lisa sozinha. “De repente, ela sumiu e não sabia onde minha mãe estava”, relembra. Tempos depois, a filha juntou-se à mãe. Apesar da rica experiência de vida que Nina disse ter passado no país africano, viu-se compelida a mudar-se para a Suíça dois anos depois, com o intuito de oferecer melhor educação para a garota. Esse período, conta Lisa, foi traumático. Ela disse ter apanhado diversas vezes de Nina, sem saber o porquê, e decidiu voltar para viver com o pai, depois de quase ter se matado.
As confusões envolvendo Nina Simone não pararam por aí. Depois que mudou para França, viveu situação muito irregular. Num dos episódios mais polêmicos, foi encontrada pelada no corredor de um hotel, com uma faca na mão. Em outro momento, incendiou a própria casa. Fez ainda pior: atirou na perna do jovem filho de um vizinho, só por causa do barulho que ele fazia no quintal.
Médicos diagnosticaram a cantora e afirmaram que ela sofria de transtorno bipolar.
Estes últimos detalhes do período mais obscuro de Simone são ofuscados, talvez pelo fato da família da cantora estar envolvida em sua produção. No entanto, What Happened, Miss Simone? relembra que um comercial da Chanel com regravação da música “My Baby Just Cares For Me” deu nova projeção artística sobre a obra da cantora. E, no começo dos anos 1990, lá estava Nina lotando shows no Olympia, em Paris.
O documentário não mostra, também, o consumo de cocaína de Nina, a forma com que se envolveu com o repertório de Billie Holiday ou como foi quando encontrou Nelson Mandela. Isso, claro, não representa demérito por parte do filme. What’s Happened não menciona, inclusive, o encontro que Nina Simone teve com Michael Jackson, seu artista favorito, em um avião. Ela disse ao astro do pop: “Não deixe que eles te mudem. Você é negro e é lindo”.
Assim a diva viveu até 2003, quando morreu aos 70 anos vítima de câncer.
