Uma das coisas mais admiráveis da cidade de Recife é a alegria do povo e o humor diante de situações que poderiam complicar a vida de qualquer um. Esse é o quesito básico para entender a obra de Catarina Dee Jah, que transita entre o brega de sua cidade, elementos pop-eletrônicos, funk e tropicalismo.

É algo meio maluco, o que acaba sendo positivo para a carreira de uma artista tão peculiar e sincrética. Ela já se aventurou pelas casas noturnas da capital pernambucana tocando como DJ e disparando comentários sarcásticos por cima das bases musicais – passo essencial para criar um estilo único na música contemporânea.

China, Chiquinho e Homero Basílio estavam prestigiando o trabalho da DJ em uma dessas noites perdidas, e ficaram impressionados com o jeito dela soltar esses verbetes. Levaram a moça para o estúdio e apresentaram-na para os produtores do Festival Coquetel Molotov, onde ganhou imensa projeção após abrir um show de Mallu Magalhães de forma irreverente, soltando frases engraçadas e dançando loucamente.

A sinceridade, algo tão raro em um ambiente artístico, é uma das marcas da cantora. “Kai Fora” expõe um feminismo rude e sem lenga-lenga, com direito a termos sugestivos como “vai tomar no… (e entra uma batida que lembra um funk carioca mais acústico)”. Mas, se por um lado as letras são descompromissadas, a parte instrumental é bem representada por Mateus Alves (baixo elétrico), Yuri Queiroga (guitarra), Basílio (samplers e percussão) e Hugo Gila (sintetizador).

“Sarará” também tem uma letra divertida e um ritmo que mistura a velocidade do forró com o poder lírico da guitarra acústica. A faixa vai se remodelando em gêneros condensados, enquanto fala de amor e tesão de modo quase ingênuo, não fosse a propriedade que a cantora tem de demonstrar sua independência emotiva nos vocais.

E, como referências diretas aos novos sons nordestinos não poderiam faltar, o tecnobrega rola solto na canção “Tô Solteira”, feita em parceria com Gabi Amarantes, considerada a Beyoncé do Pará. A música, aliás, é uma releitura de “Single Lady”, hit pegajoso da cantora americana.

Catarina já é conhecida em alguns redutos cult de São Paulo e está divulgando seu EP homônimo pelo selo Joinha Records. Sua sonoridade pode ser definida como um brega moderno, que relata atitudes cotidianas pelo ponto de vista de uma garota extrovertida, quase caricata.

Ainda não há previsões para o lançamento de um álbum, mas pode ter certeza que o estouro no cenário alternativo é algo que o tempo vai lhe reservar.