
01 Obvious Bicycle 02 Unbelievers 03 Step 04 Diane Young 05 Don’t Lie 06 Hannah Hunt 07 Everlasting Arms 08 Finger Back 09 Worship You 10 Ya Hey 11 Hudson
12 Young Lion
Gravadora: XL/Popstock!




No primeiro disco, o Vampire Weekend mostrou logo de cara que era uma banda indie com referências distintas – e até valiosas, cujo legado mais interessante é reinterpretar em um novo contexto tanto riffs vigorosos de rock’n roll como fragmentos da síncope africana.
Contra (2010) veio com um papel de fixação: o Vampire Weekend tinha que cravar sua posição musical, o que justifica o apelo pop de músicas como “Holiday” e a eletrônica “Giving Up the Gun”, cuja letra seria o ponto de partida para o refinamento que veio em Modern Vampires of the City.
Agora, temos uma banda que procura trabalhar a complexidade em suas composições num tempo em que a era de apreensão de George Bush findou-se, acalmando aquele discurso contra a beligerância do governo. (Claro que nesse caminho veio a crise econômica, mas talvez Ezra Koenig tenha ficado satisfeito com o que Bruce Springsteen e Dr. John cantaram no ano passado.)
Então, o momento que o Vampire Weekend considerou oportuno chegou: hora de trabalharmos o imaginário. Nada de discursos diretos. Que comece a dança para celebrar o abstrato a partir das nossas referências intelectuais.
E, em questão de inteligência, a banda está bem apurada. Em “Obvious Bicycles”, o grupo fala sobre como encarar a vida fácil e seguir em frente depois de descobrir que é necessário viver para aprender. E aí vem a referência um tanto óbvia, que permeia boa parte do álbum: Paul Simon – mais precisamente no tema da canção “The Obvious Child”, que inclusive chegou a ser gravada com o Olodum.
Nem mesmo a balada potencial do disco “Step” escapa de supostos paralelismos: ligando cidades norte-americanas e algumas localidades, tira uma onda com punks (dizendo que ‘não sabem se vestir de acordo com o clima’). No entanto há um ensinamento bacana aos jovens que adoram se sentir velhos: ‘A sabedoria é um presente, mas você poderia trocá-la pela juventude/Idade é uma honra – mas ainda não representa a verdade’.
Essa última frase de “Step” é justamente o prenúncio do verdadeiro significado de Modern Vampires of the City: estamos diante de músicos que querem experimentar, exercer o livre-pensar que a juventude permite a partir de diferentes decorrências e, ainda assim, exibir testosterona. Pois, se é isso que nós jovens procuramos, o terceiro disco do Vampire Weekend nos oferece isso de sobra.
Há uma dosagem admirável de como dar profundidade em certos temas sem soar inadequadamente ‘indie dançante’ – característica que vem à mente quando lembramos das canções mais pop do Vampire Weekend. Sob piano e uma produção ventosa, “Hannah Hunt” fala sobre perfis tradicionais como ‘homem de fé’ ou ‘jardineiro’ que mantêm suas idiossincrasias. Nisso, ele constrói um perfil próprio de sua relação com Hannah, concluindo: ‘Não há futuro/Não há resposta/(…)Temos o nosso sentido de tempo’. Pode ser pomposo e soar ingênuo para o próprio Koenig daqui há 20 anos (hoje ele tem 28). Mas, pelo menos, é sincero neste exato momento.
As escorregadas do disco estão justamente em retomar as rédeas estéticas que o Vampire Weekend arremessou anteriormente. Afinal, uma vez ultrapassada a ingenuidade, usá-la como artifício nem sempre é uma vantagem. E aí temos a dançante “Finger Back”, que mais me parece um take descartado de Contra; e “Worship You”, com um cavalgar percussivo que lembra os rodeios country brasileiros (se colocar como playlist num show de espera de Fernando & Sorocaba, de repente a banda conquista mais um nicho).
Mas o escorregão mais grave está em “Ya Hey”, um desperdício enorme. A letra é ótima: fala sobre as desilusões e o abatimento niilista de um personagem aparentemente desencantado com religiões. A pronúncia ya hey em repetição representa o clamor com que os judeus chamam ‘deus’. O efeito é tão enfadonho, que muitos ouvintes podem achar que estão diante de mais uma bobagem de letra do VW.
Temos backing vocals gospel e percebemos como a canção ataca a sacralidade. No entanto, as armas utilizadas são horripilantes, e a canção soa como se o Vampire Weekend tivesse tirando sarro das condições desse personagem que poderia ser levado mais a sério. Se a ideia era soar como ironia, o artifício usado soou como um erro dos grandes. (Seria esse o problema da juventude que quer ser complexa? Por que eles não perguntaram se Paul Simon a aprovaria?)
Ainda que seja o disco mais idiossincrático que o Vampire Weekend pode oferecer no momento (e também estou me referindo à sonoridade mais ousada e refinada), Modern Vampires of the City é um passo grande e admirável.
Só que, nesses confrontos intelectuais, emocionais e religiosos, a banda propõe um xeque-mate em seus argumentos, em detrimento de elevar a reflexão que composições tão instigantes poderiam suscitar.
Que o público jovem prefere dançar e celebrar a musicalidade que discutir, isso é quase um axioma. Mas – e o Vampire Weekend, se contenta com o quê? Quer instigar a discussão por meio de temas espinhosos, ou quer que dancemos enquanto essas questões se esvaem por dança?
Melhores Faixas: “Step”, “Diane Young”, “Hannah Hunt”.
