01 Exagerado02 Medieval II03 Cúmplice04 Mal Nenhum05 Balada de Um Vagabundo06 Codinome Beija-Flor07 Desastre Mental08 Boa Vida09 Só as Mães São Felizes

10 Rock da Descerebração

Gravadora: Novembro de 1985
Data de Lançamento: Som Livre

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Exagerado é um termo que sempre coube muito bem a Cazuza. Trinta anos depois de sua estreia solo, o carioca mais desbocado do rock nacional ainda cativa por sua emoção musical e, principalmente, por sua poesia direta, ácida, jovial.

Cazuza é arrebatador, e isso está implícito tanto em suas canções, como em sua trajetória de vida.

Filho único do empresário da indústria fonográfica João Araújo (fundador da Som Livre) e Lucinha Araújo, Cazuza declarou-se bissexual aos 18 anos.

Em 1981, entrou para o Barão Vermelho, recomendado por Leo Jaime. Com Frejat, estabeleceu uma parceria frutífera – vide sucessos como “Pro Dia Nascer Feliz” e “Bete Balanço”.

Mas, em 1985, sentiu a necessidade de partir para carreira solo. Cazuza, ególatra assumido, não queria “dividir a atenção e os palcos” e, depois de ser hospitalizado, por conta de uma pneumonia, lançou Exagerado.

Considerada por ele próprio a canção mais biográfica de sua carreira, a faixa-título é o resumo de uma personalidade de excessos. De cara, rompe com o que estabeleceu com o Barão Vermelho; Cazuza mira a si próprio, transparecendo sua vida com um espelho reluzente.

Exagerado é o disco mais bem resolvido da carreira de Cazuza. Sua musicalidade era mais moderna que o rock então produzido no Brasil naquela época

A segunda faixa, “Medieval II”, segue a mesma linha: ‘Às vezes eu amo tanto que tiro férias/E embarco num tour pelo inferno’.

O que mais surpreende nessa estreia é a forma com que Cazuza musicou suas paixões e desilusões políticas e amorosas. Em “Mal Nenhum”, parceria com Lobão, o baixo funky de Décio Crispin acompanha as desventuras de um arruaceiro que fez questão de mostrar essa faceta ao Brasil: ‘Me deixem, bicho acuado/Por um inimigo imaginário/Correndo atrás dos carros/Como um cachorro otário’. O refrão, com solos estarrecedores de guitarra de Rogério Meanda, impacta: ‘Eu não posso causar mal nenhum/A não ser a mim mesmo’.

Ainda que não tenha tanto destaque quanto as canções de cunho mais pessoal, “Desastre Mental” denota um posicionamento crítico em relação à nossa posição social: ‘Aqui ninguém tá morto/E daqui ninguém sai’. Renegando a ‘vocação pra otário’, em “Boa Vida” Cazuza também não esconde que se beneficiou da boa situação financeira dos pais e moldou sua trajetória por conta da abertura política com o fim da Ditadura: ‘É que os tempos mudaram/E agora eu ando/Muito bem acompanhado’.

Quando compôs “Balada de Um Vagabundo”, Waly Salomão estava hospedado em um hotel na Bahia, quando se deparou com Cazuza correndo pelado, reclamando porque não conseguia usar o telefone. “Aquilo era tão Antonioni”, disse Waly.

A musicalidade de Exagerado é bem mais moderna que o rock então produzido no Brasil naquela época. Afiada, a banda formada por Rogério, Décio, Nico Rezende (piano/teclado), João Rebouças (teclado) e Fernando Moraes (bateria e percussão) criou uma musicalidade avante, que captou bem as mensagens politizadas e idiossincráticas de Cazuza em um contexto mais global que regional – faceta que seria bem desenvolvida em Ideologia (1988).

A sonoridade de Prince, o pós-punk e a inspiração de Lou Reed é a mistura que melhor define o disco. Se “Codinome Beija-Flor” se destaca pela singeleza do piano e inserções orquestrais, petardos como “Cúmplice” e “Balada de Um Vagabundo” bebem da fonte da new-wave. Rock’n roll, mesmo, vide “Desastre Mental” e “Rock da Descerebração” – o que não quer dizer que as demais sejam menos enérgicas. Cada ímpeto é catalisado da forma mais conveniente, o que rende a Exagerado a alcunha de ser o disco sonoramente mais bem resolvido de Cazuza.