Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 2 de outubro de 2015

Crônicas da Cidade Cinza (2011), disco solo de estreia de Rodrigo Ogi, protagonizava uma metrópole complexa, obscura, cruel – mas, ainda assim, um cenário de aventuranças e histórias incríveis de batalha e superação.

Quatro anos depois, o contexto para o segundo álbum, RÁ!, não mudou nadinha. São Paulo ainda é cenário, mas quase não mencionado. As lembranças acometem as rimas, mas não porque o rapper está mais velho. Despertam mais inspiração e, o melhor, se aliam à naturalidade da passagem do tempo.

De certa forma, RÁ! reforça o que Ogi apresentou de melhor em Crônicas: as histórias e os perfis de cidadãos tão comuns como os que se vê nas ruas, nos ônibus. O baque, mesmo, é mais musical.

Sem perder o humor, Ogi revela as dicotomias sociais nas mais despretensiosas canções. A musicalidade é elaborada mais no sentido de acompanhar o ritmo das rimas, que contrapor ou sugerir acréscimo interpretativo

Junto a ele, alguns músicos da cidade cinza que ajudaram Criolo a quebrar barreiras musicais participam – no entanto, a contribuição foge de qualquer prerrogativa de Nó na Orelha (2011) ou Convoque Seu Buda (2014). Elas se adequam ao flow de Ogi, ressaltando a destreza poética de suas rimas, típicas de um cidadão da periferia: sem perder o humor, ele revela as dicotomias sociais nas mais despretensiosas canções. E a musicalidade é elaborada mais no sentido de acompanhar tal ritmo, que contrapor ou sugerir acréscimo interpretativo às composições de Ogi.

“Hahaha”, com Thiago França, é um claro exemplo. Mesmo num sonho, a imagem de um Chevette velho e a temida imagem do pai que quer punir o rapaz que faz ‘vuco vuco’ com sua filha são reimaginadas de diferentes formas: na hora do refrão, o sax de França é suave; na tensão do enredo, entra o EWI, com seus arranjos excruciantes, acompanhando a tensão da história.

A seguinte, “Correspondente de Guerra”, tem arranjos de guitarra por Kiko Dinucci e participação de Juçara Marçal no refrão. Partindo do principal lema de Gil Scott-Heron (‘Isso que você testemunhará/A televisão não transmitirá’), Ogi retrata uma realidade que, por mais que esteja ausente nas letras do rap atual, ainda persiste: o bangue-bangue nas favelas e a vulnerabilidade de quem vive num cenário de confronto entre polícia versus ladrão – os dois contra todos que fazem parte desse cenário.

Essa temática de violência intrínseca na metalinguagem do rapper foi muito explorada no rap dos anos 1980 (nos Estados Unidos) e 90 (Brasil). Em entrevista ao canal Noisey, da Vice, Ogi explicou de onde veio a fonte: “Eu tenho uma pasta de rap que começa em 1984 e vai até 2000. Os anos que eu tenho mais CDs são 94, 96 e 97. Deve ter uns 50 discos em cada um desses anos”.

Neste caso, a produção de Nave e a masterização de CESRV (patrono da Beatwise Recordings) fundamentam as influências musicais latentes em trabalhos dessa época. Englobam dos beats alarmantes de “Aventureiro” ao samba boêmio de “7 Cordas”, reforçado pelas participações de Doni Jr. nos arranjos e Carlos Café na percussão. Assimilam, também, pianos (“Trindade 3”), batidas minimal (“Virou Canção”) e o ‘abalo sísmico’ das percussões africanas (“Faro de Gol”, com participação de Rael).

Num estilo que lembra Sombra, “Chico Cicatriz” apresenta ao ouvinte o típico perfil de um bandido que, ao voltar pra quebrada, não tem perdão da sociedade. A intolerância é exemplo de um microcosmo que se adequa muito bem à mesma sociedade brasileira que, em 50% dos casos, acredita que ‘bandido bom é bandido morto’. Por isso, vale prestar atenção no epílogo, em que Ogi parece dialogar com um psicólogo. Ele conclui: ‘Porque a gente vive em um mundo que só aceitam as pessoas que acertam. Essa é a grande merda’.

Outros lançamentos relevantes:

Elza Soares: A Mulher do Fim do Mundo (Natural Musical)
Deafheaven: New Bermuda (Anti)
Autre Ne Vaut: Age of Transparency (Downtown)
Otacílio Melgaço: Eureka (Independente)
Mercury Rev: The Light in You (Bella Union)
Editors: In Dream (PIAS)