Gravadora: Dabliú Discos
Data de Lançamento: 19 de fevereiro de 2016

Admirado por sua erudição ao tratar o popular, o paulistano Luiz Tatit já não soa mais tão acadêmico assim. Quer dizer, na verdade nunca soou, embora o Grupo Rumo, que fundou em 1974, tenha base em estudos de entonação, e seu DVD O Fim da Canção tenha como um dos integrantes do trio o diretor artístico da Osesp Arthur Nestrovski (com Zé Miguel Wisnik).

De fato, o formato canção é um trajeto arduamente seguido pelo violonista, e Palavras e Sonhos mostra que essa relação tem sido bastante prazerosa a Tatit, embora não se perceba muitos obstáculos.

Lançado três anos depois do projeto colaborativo com Arrigo Barnabé e Livia Nestrovski, De Nada Mais a Algo Além (2013), Palavras e Sonhos alia os jogos de palavras à síntese das complexas cordas de seu violão. Elas são entoadas num formato lírico-lúdico, agradável de se ouvir; um disco que apraz pela substância de suas sutilezas, que nos evoca momentos que se conectam às nossas imaginações.

Luiz Tatit incluiu no repertório canções que já haviam sido mostradas anteriormente – “Das Flores e das Dores”, com Emerson Leal, é de 2012; “Musa da Música”, escrita com Dante Ozzetti, fez parte do repertório de Embalar (2013), de Ná Ozzetti; e “Tristeza do Zé”, uma das mais marcantes, é parte do repertório de Zé Miguel Wisnik, que o gravou no duplo Indivisível (2011)

O 6º trabalho solo de Tatit é totalmente acústico e tem indelével apego às raízes. A primeira faixa, “Mais Útil”, tem um ar interiorano que engana qualquer relação com a música caipira – afinal, o músico nasceu e tornou-se um dos símbolos do boêmio bairro Vila Madalena, em São Paulo.

“Tristeza do Zé” retoma o acordeão e o dueto (com Juçara Marçal) citando diferentes cidades numa profunda entrega à melancolia: ‘Não tem pouco se tem fim/Se deixar, vai invadir/Evitar de se espalhar bem que tentei/(…)Vem nas asas da tristeza quem quiser’.

Publicidade

Luiz mais uma vez entregou a produção ao filho, Jonas Tatit. O resultado é que a musicalidade tem o resquício de modernidade que, sabemos, não seria abandonado por ele. Ainda assim, percebemos uma flexibilização de sua técnica à MPB atual, mas não dá pra dizer que há um gênero preponderante no disco.

Na segunda faixa, “Diva Silva Reis”, ele pende para o tonalismo da MPB, embora o refrão adquira tons orquestrais.

Palavras e Sonhos alia os jogos de palavras à síntese das complexas cordas de seu violão. Elas são entoadas num formato lírico-lúdico, agradável de se ouvir

“Feitiço da Fila”, já mostrada em De Nada Mais a Algo Além, é ancorado em brandas tensões para criticar um dos grandes males de se viver em SP (pegar fila), relacionando-o com a possibilidade de um amor.

A parceria com Marcelo Jeneci, “Estrela Cruel”, é de um cromatismo cinza que se apodera pela canção. Essa força é mais assegurada na faixa seguinte, “Planeta e Borboleta”, em que repete a parceria com Ná Ozzetti, declaradamente a intérprete favorita de Tatit (eles trabalham juntos desde o Grupo Rumo).

A outra participação de Juçara, que poderia ter mais ‘espaço’, reside em backing vocals na faixa-título, que encerra o disco de forma soberba. Tatit fala em ‘seduzir o mundo’ a partir do amálgama entre rural e urbano, acordes polifônicos e eloquência verbal. A canção é uma balada em que as rimas são entoadas progressivamente, acumulando palavras para que entre uma e outra rima a extensão aumente aos poucos. ‘Uso palavras picadas no som’, responde o cantor na própria canção. No entanto, elas são tão coerentes quanto sua técnica no violão.

Outros lançamentos relevantes:

Animal Collective: Painting With (Domino)
Essaie Pas: Demain Est une Autre Nuit (DFA)
The Heliocentrics: From the Deep (Now-Again)
Erena Terakubo: A Time For Love (Cellar Live)