Em 1967, Otis Redding já era o maioral. Tudo aconteceu muito rápido: aos poucos ele foi se moldando depois que foi descoberto por Phil Walden. Aquele garoto que demonstrava potencial quando tocou pela primeira vez “These Arms of Mine” já tinha levado suas habilidades vocais ao extremo com “Respect” (que, apesar de ficar bem conhecida na voz de Aretha Franklin, foi escrita por Otis) e “Satisfaction” (dos Rolling Stones).

Após ter conquistado relativa independência com singles nas paradas de soul music, o cantor fez duas turnês que mudaram sua vida: uma foi junto com a Stax pela Europa, onde percebeu a grandiosidade do soul pelo mundo. Outra foi em um show de graça que fez no Monterey Festival, na Califórnia.

A canção atingiu o topo das paradas sim, mas o motivo é bem questionador. É que em dezembro de 1967 a canção ainda não tinha sido lançada e, no dia 10, Otis Redding faleceu

Ele tocou pela primeira vez ao lado de grupos como Jefferson Airplane e The Byrds e, com a responsabilidade de fechar o segundo dia do festival, teve que encantar de alguma forma. Resultado? O público de mais de 60 mil pessoas ficou emocionado e aos prantos com as performances de “Cigarrettes and Coffee” e “Try a Little Tenderness”, uma de suas músicas mais belas.

A partir de então, ele decidiu que teria de mudar de rumo, senão o público acabaria enjoando do ‘Big O’. No período em que estabeleceu uma pausa (involuntária) de shows por recomendação médica para tratar dos vocais, ele compôs “The Dock of the Bay”, dizendo que este seria o próximo grande hit. A música pausada e os arranjos mais melódicos não puxavam tanto sua habilidade vocal. Ele a apresentava a todos como a ‘melhor música que já escrevi na vida’, mas muitos duvidavam, pois significava rumos diferentes no R&B. Alguns diziam que o chefão da Stax, Jim Stewart, jamais permitiria o lançamento da canção.

Então, com a autoridade de um grandioso, ele entrou nos estúdios e chamou o grupo do Booker T. and the MGs para gravar a parte instrumental. “A canção ressoou em uma voz alta na parede mais distante do estúdio, e Booker T. tocou uma batida precisa, enquanto Steve Cropper seguia os vocais com linhas de blues estremecedoras na guitarra”, relatou o jornalista Stanley Booth ao Saturday Evening Post naquela ocasião. “A fita foi tocada novamente em um volume estridente. Steve e Otis se encararam profundamente, numa espécie de comunicação telepática. Um garoto que estava no estúdio [que permaneceu sem o consentimento de ninguém] olhou para o gravador e disse: ‘Gosto disso. É uma boa canção. Gostaria de ser cantor também’. Otis disse: ‘Então é isso’”.

G. Álbuns: Otis Redding | Otis Blue (1965)

A canção atingiu o topo das paradas sim, mas o motivo é bem questionador. É que em dezembro de 1967 a canção ainda não tinha sido lançada e, no dia 10 daquele mês/ano, Otis Redding faleceu em um acidente de avião com diversos músicos da sua banda de apoio, os Bar-Kays, quando viajava para um show que iria ocorrer no Madison. Ele tinha apenas 26 anos.

“(I’m Sitting on) The Dock of the Bay” possivelmente marcaria uma transição importante não apenas na carreira de Otis, como nos rumos da soul music e do R&B. A canção era reflexiva e tinha uma narrativa impecável, típica de um cidadão que aprecia as docas de barco. Naquela época, ele estava encantado com Sgt. Pepper’s, do The Beatles, e queria trazer essa inventividade para a soul music.

A trágica morte de Otis Redding aconteceu quase três anos após Sam Cooke levar um tiro em um motel barato. Johnny Jenkins, o primeiro a reconhecer o talento nato de Otis, comentou com secura essa infeliz coincidência: “isso é o que acontece com negros que têm ideias”.