
A simpatia contida na faixa-título do segundo disco do sambista Dani Turcheto, Madeira Torta, esconde alguns efeitos no seu cavaquinho que já foram explorados por guitarras de grupos como The Smiths e New Order.
Mas, calma, não criemos pânico: se há alguma proximidade com o samba-rock, me certifico a afirmar que é bem mais samba tradicional do que o próprio samba-rock. Que outro ritmo traria estes versos: ‘Pior que eu saquei/que ia avacalhar/não sou bacana/nem sei deixar outra te amar’?
As composições de Dani Turcheto fogem do óbvio com mensagens figurativas inteligentes, além de serem encorpadas com referências do jazz e da bossa nova
O mérito de Dani está em dialogar com outros ritmos universais de forma natural, que agregue ao seu samba. As composições fogem do óbvio com mensagens figurativas inteligentes – como na própria “Madeira Torta”, que justifica o título com o verso poético ‘Começo a arquear/viro uma flecha torta/e o alvo não consigo acertar’.
Além de ser moderno, o samba de Dani é sofisticado. Não ‘somente’ por ele ter gravado algumas faixas em Nova York, ter chamado Dani Luppi para cantar a bela e singela “Amor de Lágrima” (com a simbologia ‘molha por dentro e ajuda a florescer’), ou contar com a colaboração do percussionista Mauro Refosco, que já dividiu palcos com Radiohead e Red Hot Chili Peppers. Não é exagero dizer que Madeira Torta tem potencial para agradar até os mais puristas.
Dani Turcheto também injeta órgãos hammond (bem perceptíveis em “Enchente”) e teclados que rechearam nossos sambas sessentistas. Jon Cowherd, um pianista dos bons da gravadora Verve, forma um p(i)ano de fundo bem old-fashioned em “Um Samba em Cada Esquina”, temperado na medida para se manter mais samba do que jazz – ainda que fique delicioso em qualquer uma das duas formas.
A tradição sambista é muito bem preservada em “Festa de Reis”, que traz uma inflexão inicial que, em milésimos de segundos, lembra “Insensatez”. Só que a faixa segue para algo mais swingado, falando de festas e da mulher desejada.
Sem perder as raízes e as estribeiras, Dani Turcheto cria um diálogo belo e sincero em Madeira Torta, trabalho que ele define como uma ‘evolução natural’ em relação ao primeiro disco, Sobremesa. Para mostrar o quanto é antenado, disponibilizou em seu site oficial os dois trabalhos no mesmo sistema que o Radiohead fez com In Rainbows: baixe, e se gostar, volte lá e pague o quanto acha que vale.
Ouça abaixo Madeira Torta na íntegra:
