Les Claypool, o eterno líder do Primus

Gravadora: ATO Records, Prawn Song

Mais insano do que nunca, o Primus retornou em um ótimo momento à cena musical após um hiato que já durava mais de 7 anos – sem disco novo, já são mais de 11. Durante esse tempo, houve algumas alterações no grupo: Tim Alexander, baterista desde os primeiros álbuns, não tinha mais interesse em reavivar o Primus. Les Claypool, o baixista/vocalista e líder, decidiu chamar Jay Lane em seu lugar que, se não gravou nenhum disco, estava com o Primus nos momentos em que ele estava se gestando, por volta de 1988 e 89.

Grupo estava há mais de 11 anos sem lançar nada inédito. Para voltar com força total, Claypool chamou o baterista Jay Lane, que não tocava com o Primus desde 1989

Tudo começou com uma turnê em 2010, que chegou a resultar no EP June 2010 Rehearsal, com canções de seus álbuns pesados do passado, como Suck on This (1989) e Brown Album (1997). Coisas boas saíram daí: Claypool já mostrava boa empolgação, ainda mais trabalhando com pessoas com quem se identifica há muito tempo.

E, disso, resultou-se o esfuziante Green Naugahyde. De início, um prelúdio sombrio meio metal progressivo esconde a profusão quase espalhafatosa de P-Funk que já vem logo em seguida, na faixa “Hennepin Crawler”, que exibe Claypool com vocais parecidos com um Eufrazino diabólico falando sobre coisas estranhas que os homens podem fazer por dinheiro.

Esse resgate vívido da essência Primus já estava bem evidente quando a banda soltou, em 18 de agosto, a faixa “Tragedy’s A-Coming”, um funk eletrônico que dá espaço aos slaps criativos de Claypool com uma instrumentalidade tão bem amarrada, que dá vontade de ignorar o teor das letras, que continuam falando sobre esquisitices. Como se já não bastasse o baixo, o guitarrista de longa data Larry “Ler” LaLonde cria solos que poderiam muito bem ser atribuídos a um rockabilly mais elétrico.

“Tragedy’s A-Coming”

Seguindo neste clima festivo, “Lee Van Cleef” mostra um Primus acertadamente mais desconexo nos instrumentos de corda. É acertado por se tratar de instrumentistas virtuosos que conseguem criar essa dinâmica distorcida sem parecerem pretensiosos.

Pretensiosa mesmo, aliás, é a faixa “Jilly’s On Smack”, que segue uma via mais melódica para falar sobre a perda de um amigo de Claypool para as drogas. O compositor disse que não havia escrito nada parecido anteriormente porque não sabia o que realmente significava essa perda. Os vocais são mais naturais aqui mas, ainda que os riffs sigam agitados, a banda tenta conciliar essa atmosfera alucinógena que paira na mente do usuário com a dor daqueles que o viram se afundar nessa desgraça. Melhor ainda é apreciar tudo isso em um estilo Primus – Primus reflexivo? Talvez, mas não tire da cabeça aqueles slaps bem marcantes.

Para manter a tradição de falar sobre pescarias e coisas do mar, “Last Salmon Man (Fisherman’s Chronicles Part IV)” continua com a narrativa marítima que marcou o clássico “John, the Fisherman”, de Suck On This, mostrando que a relação com as criaturas do mar não é algo somente do discípulo de Jesus, mas de todos os homens. Outro tema marítimo se encaixa em Green Naugahyde: “Salmon Men”, o epílogo do disco que evoca os refrões de “Last Salmon Man” sugerindo uma continuação não apenas dessa temática em um possível novo trabalho – também dá indícios de que o Primus ainda tem muito a nos oferecer.

Melhores Faixas: “Hennepin Crawler”, “Tragedy’s A-Coming”, “Jilly’s On Smack”, “Moron TV”.