Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 6 de outubro de 2014
As intersecções entre jazz e eletrônica, desde os anos 1960, penderam à acidez. Os resultados estéticos são favoráveis, não apenas pela bem-sucedida obra de grupos importantes como Mahavishnu Orchestra e Weather Report; o volume incontido de testosterona brotado dessa combinação ainda permeia o que muitos jazzistas abraçaram como moderno.
Grupos como Vijay Iyer Trio e Fire! Orchestra indiretamente recorrem a essa proposta ácida, ainda que seja fruto tanto da salvação, como da ruína do jazz.
Steve Ellison faz pouco caso do que é relevante nessa discussão. Não é considerado jazzista porque não é instrumentista. Mas sua contribuição, porventura, é bem expansiva. Afinal, ele trouxe uma importante transição do gênero aos clubes.
Quantos se convenceriam, mesmo em pleno século XXI, que Flying Lotus seria opção minimamente aceitável nas pistas? Ainda são poucos, se levarmos em consideração o imenso alcance que a eletrônica ainda possui. Pode ser que aumente.
Um importante dado deve ser adicionado ao fator FlyLo: houve crescente interesse do jazz nos subúrbios justamente quando críticos consideraram ser o período menos frutífero para o gênero.
No final dos anos 1980, a popularização de “Jazz Thing”, de Gang Starr, deu o start. Veio A Tribe Called Quest e, no subterrâneo, Digable Planets, e o jazz tornou-se elemento fortíssimo na cultura hip hop. Com os experimentos de J Dilla, então, despertou novamente o interesse da juventude que havia sido abarcada pelo rock nas décadas anteriores.
Nessa dinâmica o jazz era secundário. No som do Flying Lotus também temos essa impressão, vide o uso de samples, fragmentos, cortes imprevisíveis e bass acelerado em momentos tidos como artificiais demais. Não há ser humano que reproduza aquilo com técnica orgânica.
Se o jazz abraçou o digital, Flying Lotus hoje é seu maior expoente. As dúvidas sobre a validade ou não deste modus operandi pouco foram questionadas. Se foram, a resposta dada em Cosmogramma (2010) convenceu suficientemente a ponto de alçá-lo como um dos músicos mais relevantes dos anos 2000. Seus comentários são influentes, o que escuta atrai neófitos, é requisitado por músicos da nova geração e tido como um dos grandes inovadores da eletrônica atual.
No entanto, pelo que Ellison nos entrega em You’re Dead, o alcance conquistado não é suficiente. É em busca de melhor contextualizar o seu trabalho que este disco se destaca.
Os atrativos são majestosos. Ele tem o bombástico Kendrick Lamar à disposição no ácido-que-dá-certo “Never Catch Me”, por cima de um belo piano e contrabaixo todo Roncartiano. Snoop Dogg relembra os velhos tempos em “Dead Man’s Tetris”, que soa como um pingue-pongue psicodélico. Se algum questionamento sobre tradição jazzísica aprouver a qualquer detrator, ninguém menos que o lendário Herbie Hancock surge com sua bênção em “Tesla” e “Moment of Hesitation”.
A tríade inicial “Theme”, “Tesla” e “Cold Dead” é das mais potentes que você encontrará num disco de 2014. Pungentes, aceleradíssimas, nervosas, pra não deixar o ouvinte desgrudar do disco. Sim, são ácidas.
Parece que iremos nos deparar com uma obra de fusion, mas não um fusion qualquer. Décadas de jazz inovador pululam nestas faixas, mas Ellison logo mostra a cara de seu trabalho em “Never Catch Me”. É urbano como o produtor sentiu em good kid m.A.A.d city (2012), um dos álbuns que mais escutou nestes últimos anos. Portanto, o trajeto de You’re Dead é intencional: FlyLo atrai com acidez e nivela os próximos passos unindo o obscurantismo jazzístico à vibração eletrônica.
“Turkey Dog Coma” é práxis nesse sentido. Começa com os nervos injetados, até que se rende às pausas, preenchidas por aquelas linhas de piano que tanto fizeram as cabeças de quem ouviu In a Silent Way (1969) pela primeira vez. O contraste de notas rápidas de guitarra, bateria esquizofrênica e piano minimamente orientado entregam a herança musical de Ellison. É mais do que os titios Alice e John Coltrane; revolve a ESP (1965), de Miles Davis, ou Emergency (1969), de Tony Williams.
O maior engano a ser cometido sobre You’re Dead é achar que o jazz está acima de tudo. É, de fato, fundamental na obra do Flying Lotus, mas transfigurado o suficiente para ser percebido como artificial. Acima do orgânico, inerente ao gênero, temos a eletrônica, que justifica os experimentos do músico. Uma eletrônica caleidoscópica, tão viajante como a rotina da luz solar.
O rumo incerto também permite a FlyLo encontrar-se noutras cenas musicais. Em momentos como “Siren Song” e “Your Potential/The Beyond”, temos a visão de futuro que muito se conecta ao R&B de How To Dress Well e FKA twigs. São tácitos, quase ambient. Mas a tensão uma hora chega e imaginamos um thriller maravilhoso.
Não sabemos como opera a mente por trás delas, ou como essas canções se conectam à corroída “The Boys Who Died in Their Sleep” (com participação esplêndida de Captain Murphy) ou à tensa “Ready Err Not”. Conforme o andar de You’re Dead, FlyLo se desvencilha de todo o conceito de acidez como atrativo de seu som. A música orgânica transcende ao que seria técnico. Não importa se há colagens, esquisitices, barulhos ou tiros de hibridismo. O orgânico, para Ellison, é fruto de um artificialismo que tentamos evitar, mas morre com a gente.
