Gravadora: IGC
Data de Lançamento: 3 de março de 2015

Para muitos a história é nova: depois de muito se especular sobre o segundo disco do Cannibal Ox, o integrante Vast Aire desabafou no extinto MySpace que o produtor El-P, responsável pelas batidas de The Cold Vein (2001), era deveras controlador (não permitiu, segundo eles, a excessiva inclusão do termo nigga) e só pagou pelos direitos autorais das canções depois que o grupo acionou a Justiça.

Falou-se do fim do grupo que sela a união entre Vast e Vordul Mega, ainda que um chamasse o outro para participar de seus projetos solo.

Claro, não havia precisão de passar 14 anos para que o Cannibal Ox desvinculasse completamente do espectro de El-P – que hoje colhe bons louros com o Run the Jewels.

Esse papel na produção seria assumido por Bill Cosmiq. Ele cumpre importante desempenho em afastar-se de qualquer comparação com a estreia do Wu-Tang Clan, marca indelével de Cold Vein – considerado melhor álbum do rap underground pela FACT Magazine.

Cannibal Ox retorna enérgico, ainda maior que todas as discussões que tentaram diminuir sua importância ao longo de todo esse tempo

Blade of the Ronin é mais cloud-rap, talvez mais pesado nas batidas que na contundência das letras. É um prisma muito bem quisto no cenário underground do rap, principalmente por oferecer a devida contravenção ao trap (gangsta demais, conteúdo de menos), às produções extravagantes de Drake e Kanye e – por que não? – às descontrações de RTJ2 (2014).

Sim, tudo bem, falamos de uma separação com o Wu-Tang: mas isso não quer dizer que os paralelos estejam completamente eliminados. “Um Ronin é um samurai que não tem fidelidade. É sobre liberdade, ser criativamente livre para girar sua espada na direção que achar que deve”, disse Vast Aire em entrevista ao The Guardian, sem nem precisar correlacionar-se a um certo Liquid Swords (1995).

Mesmo com todos os conceitos, especulações e estimativas, o que Cannibal Ox oferece em Blade of the Ronin é certeiro, nevrálgico. Em “Psalm 82” (já mostrada no EP Gotham, de 2013), diz ter ‘ensinado a Cesar como esmagar uma uva/Sou como Musá, civilizando um planeta dos macacos‘.

Você sabe que o Cannibal Ox torna-se furioso nas gírias/Quem se importa em como você é chamado?/Eles dizem que quem se repete sobre si mesmo é um insano’, bate Vast em “Blade: The Art of Ox”, que até parece calma em relação às demais faixas – talvez por ser a única produzida por Black Milk -, mas que reúne um time de peso: El Da Sensei, Tame One (que formam o influente duo Artifacts) e U-God (do Wu-Tang Clan).

Petardos como “Opposite of Desolate”, “Carnivorous” e “The Fire Rises” mostram que o tempo de hibernação para o Cannibal Ox fortaleceram sua fúria. De modo não tão convencional, e nem tão fugidio, o duo de Nova York afia a cortante espada de seus versos no golpe certeiro que recobra seu lugar como um dos mais instigantes atos do hip hop. “Iron Rose”, com participação do celebrado MF DOOM, representa o ápice desse retorno às bases underground, fortalecida entre a segunda metade dos anos 1990 e início dos 2000 e que parece ter ganhado um revival pós-2010, principalmente por conta de obras como Black Up (2011) e XXX (2011).

Mas o que discos de longos períodos de comeback como este não escapam é de rimas desatualizadas. Pô, usar Pikachu como rima em “The Power Cosmiq”, mesmo que sugira algo avant, já passou do antiquado. Claro que existe a gradual possibilidade de reciclar clichês em prol de uma canção instigante, algo que acontece em “Thunder in July”, onde o papel de boa influência dos MCs materializa-se em simbologismos inspiradores: ‘Voe, voe pássaro de fogo/Não morra/Borboleta negra‘.

Se o pano de fundo acerca de Blade of the Ronin fosse determinante para sua audição, talvez o esforço do Cannibal Ox fosse menos sentido. Imaginar como seria se El-P estivesse de volta, ou como essa obra ressoaria pouco tempo após The Cold Vein, chega a ser grosseiro.

Quatorze anos depois, o Cannibal Ox retorna enérgico, ainda maior que todas as discussões que tentaram diminuir sua importância ao longo de todo esse tempo.