Gravadora: Cuneiform
Data de Lançamento: 27 de maio de 2014
O ouvinte percebe um quê de Frank Zappa no decorrer de [schack tati] não pelo emular de técnicas suas já conhecidas, mas pelo trânsito veloz em influências musicais que têm rock, jazz e eletrônica como integrantes de uma mesma esfera.
No entanto, a presença de Zappa é mais significativa no trabalho de Mats/Morgan do que se supõe. O tecladista Mats Oberg (cego de nascença) e o baterista Morgan Ägren conquistaram o multi-instrumentista quando tinham, respectivamente, 10 e 14 anos, com a homenagem Zappesteetoot.
Pouco tempo depois, em 1991, Zappa chamou os moleques suecos para se apresentar em alguns shows da turnê Zappa’s Universe. Com Zappa, permaneceriam até Orchestra of Our Time, apresentado em Nova York, antes de sua morte, em dezembro de 1993.
Apesar do tempo relativamente curto, os suecos aprenderam bem a lição. Tanto que não ousam reproduzir as inimitáveis performances zappianas; o grande ensinamento está em atravessar barreiras musicais de formas improváveis, sem tornarem-se reféns do virtuosismo ou de estruturas musicais.
[schack tati] é o oitavo álbum da dupla. Já se vão seis anos desde Heat Beats Live (2008), e a principal mudança foi a construção do estúdio de Morgan próximo a um arquipélago sueco. Isso permitiu um direcionamento mais ousado no tino musical da dupla.
Em “Rubber Sky”, os pianos de música de câmara dialogam com as batidas de marcação eletrônica, nos moldes de Eurythmics. “Walk Here” une o baixo de Tommy Tordsson e os experimentos nas teclas de Mats e do clarinetista Robert Elovsson rumo a algo indiano – procura bem sentenciada na seguinte “The Swedes”. No entanto, engana-se quem pensa que ela fica presa ao que entendemos como ritmo oriental: em poucos minutos, envolve-se em programações que simulam ranhuras, como se estivesse reprocessando manualmente um resistente objeto físico.
Pela localização geográfica, Mats/Morgan encaixa-se no segmento jazz escandinavo. A nomenclatura se escapa nas sucessões de suas faixas. Nisso, [schack tati] é elementar, porque rompe com rótulos com a naturalidade que alteramos hábitos diários.
Afiada e experiente, a luz de seu significado torna-se mais clarividente quando descobre-se que schack é a forma com que os suecos mencionam jogo de xadrez. Tati vem do ator e cineasta francês Jacques Tati, considerado ‘mestre do burlesco’ e criador de Monsieur Hulot, seu mais conhecido personagem.
Assim, o nome do disco sugere, ao mesmo tempo, complexidade e doses de humor. A acepção é melhor percebida no fusion de “Tati Bake”, de deixar Jeff Beck embasbacado. “Rappel” é fortemente polirrítmica quanto às mais ousadas investidas dum Mahavishnu Orchestra: a bateria de Morgan é apimentada e as direções tomadas por Mats nos teclados são determinantes para as sucessivas entradas de notas truncadas de baixo, guitarra e clarinete – esta última, belo presente de Elovsson.
Não há padrão na dinâmica musical criada em cada uma das 12 faixas – tampouco alguma dinâmica que forme um elo musical em todas elas. [schack tati] é complexo em seus multiformatos, principalmente porque compreende a técnica como um todo, e não em momentos isolados de cada instrumento. A operação em conjunto, tendo como base teclado e bateria, é abrangente a ponto de levar as procuras musicais de Mats/Morgan a eixos que ultrapassam meras terminologias.
De algum lugar, Zappa sorri.
