Gravadora: Boomkat Editions
Data de Lançamento: agosto de 2014
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Raramente a metafísica é acionada para desvendar a música eletrônica. No caso da obra de Lorenzo Senni, ela não apenas ajuda a explicar; também guia o ouvinte a uma sessão exploratória.
Antes de qualquer coisa, o segundo disco do produtor italiano não é nada difícil. O primeiro catálogo em mente é EDM, subvertida à arbitrária noção de ritmo atemporal. Pouco importa a forma que começa ou termina; o continuum é o grande achado de Superimpositions, assim como é também o seu maior mistério.
Para tanto, vale recorrer à teoria: como o crítico Alexander Iadarola salientou em análise do disco ao The Quietus, Senni diz fazer trance pontilhista aludindo ao conceito de Zygmunt Bauman de tempo pontilhista, “marcado mais pela profusão de ruptura e descontinuidades, por intervalos separados de sucessivos pontos e quebra de ligações entre eles, que por pontos específicos”.
Ou seja, numa rápida audição de “Zeroth-Order Approximation” o ouvinte tem a impressão de um eletro portentoso que vá estourar nas pistas, mas seu ponto de fricção é tão tremendo que suas pulsações logo se manifestam como algo atônito.
Isso acontece porque Senni desenvolve a canção com natural artificialidade. É como se tais pontos existissem e fossem readaptados ao formato musical.
“Happic”, claro, é o tipo de música em que você mentaliza um DJ por trás das picapes. Na proposta de Superimpositions, porém, soa como mero appeal. O italiano quis captar o ouvinte, usando sua estrutura como exemplo de encaixe num espiral da qual nem ele, nem ninguém é dono.
Se a descontinuidade é a grande sacada, Senni não a busca pelo caminho avant-garde; na proposta da trance music, Paul van Dyk e Sunny são os feixes de um caleidoscópio acelerado, o que justifica a importância do ritmo. Esse ritmo é mantido não pelas limitações estéticas do gênero, como engana a primeira faixa do disco. Como Senni aponta em “Elegant, and Never Tiring”, a imposição do ritmo é natural e se sobrepõe às sucessivas rupturas, que aqui encontram timing perfeito.
A despeito de qualquer teoria que Superimpositions possa estimular, o álbum transcende as discussões sobre as limitações atualmente encontradas pela eletrônica. Argumentos de que há uma distância cada vez maior entre a música criativa e a música pop nesse cenário caem por terra, porque não é na estrutura que reside o experimento e, sim, naquilo que Senni entende como ponto nevrálgico: a fluidez.
Claro, há de se observar o disco tanto pela ótica conceitual, como pela ótica dançante. As respostas não são nada lisonjeiras: como o italiano aponta na faixa-título, o fator de distorção se choca com qualquer característica envolvente da música, supondo que a mescla de perspectivas de Superimpositions mexa mais com o naturalismo de nosso corpo que a complexidade de nossas ideias.
Nesse sentido, “xxx1” é o maior exemplo de subversão entre música e ideia. O ritmo é rendido à intensidade com que a ruptura é feita e o resultado é que a própria noção de trance se desconfigura radicalmente ao formato experimental que se vê hoje nas obras de Andy Stott e Oneohtrix Point Never – com o adendo de ser bem mais acelerado. Assim, “xxx1” mais que estabelece o elo entre a eletrônica radiofônica e eletrônica experimental (ainda que penda mais pro segundo exemplo), provando que a naturalidade das ideias é a principal variável na desconstrução musical, principalmente na eletrônica, tão testada (e afetada) nesse aspecto.
