Gravadora: Warner Bros

Realmente, a ideia de dedicar um disco inteiro para aprofundar-se na história da escalada social de uma stripper que se torna prostituta parecia ser algo no mínimo curioso – ainda mais encabeçada por ninguém menos que Lou Reed, o cara que compôs “Femme Fatale” para Nico (ainda que tenha odiado fazer isso) e não teve pudores para estampar a prostituição em “I’m Waiting For the Man”.

Há bem menos do Metallica do que Lou Reed: parece que a principal banda de metal do mundo foi alienada pelas possibilidades poéticas do cantor

A ideia do aguardado disco veio no dia da horrenda performance de Lou da clássica “Sweet Jane”, no Rock and Roll Hall of Fame, que até teve um bom suporte do Metallica – com direito a um belo solo de Kirk Hammett. Tempos depois, eles anunciaram Lulu, baseado em uma peça do autor alemão Frank Wedekind dividida em dois atos.

Então, iniciou-se uma série de declarações que só poderiam resultar numa pilhéria: Lou Reed disse que era a melhor coisa que já tinha feito na vida, os integrantes do Metallica diziam estar profundamente emocionados com as sessões de gravação, a música não seria mais a mesma… Marketing ou não, o disco despertou ânsias. E decepcionou numa proporção catastrófica que lembra o tal pior disco de todos os tempos: a pretensiosa e desnecessária microfonia abusiva de Metal Machine Music (1975), também obra de Lou Reed (que ele teve a coragem de trazer ao Brasil no ano passado).

Em entrevista ao USA Today, Lou Reed disse que foi ameaçado de morte pelos fãs do Metallica depois que Lulu caiu na rede. Mas, fãs e Lou, podem ficar calmos: em Lulu, pode-se pôr em prática aquele ditado que diz ‘antes só do que mal acompanhado’, ainda que numa métrica diferente – Lou Reed é a má companhia. O Metallica poderia estar em melhor crédito se não caísse no impasse de embarcar em uma locomotiva cujas trilhas só poderiam levar ao abismo. (Abismo esse que o Lou deve ter gosto de encarar: nessa mesma entrevista, ele disse: “Ninguém quer um Lulu 2, mas na minha rádio pessoal onde ouço essas músicas, eu quero mais disso”.)

Há bem menos do Metallica do que Lou Reed: parece que a principal banda de metal do mundo foi alienada pelas possibilidades poéticas do cantor. Mas não pararam pra pensar na canseira que isso causa ao ouvinte: seja na repetitiva “Cheat On Me”, que tortura os ouvidos com Lou repetindo o refrão como se fosse um zumbi; seja em “Dragon” que, apesar dos riffs inspirados da dupla Hetfield/Hammett, não consegue prender o ouvinte por excruciantes 11 minutos.

Em todas as canções, fica a impressão de que Lou Reed é aquele cara vergonhoso que recita poemas em uma praça central, mas não percebe que ninguém está dando bola pra ele. Ele fala de um vira-lata vagabundo, da frustração perante à sociedade, cai para a densidade de um violino fúnebre em “Junior Dad”. Aliás, denso é apelido em Lulu – justamente porque é um aprofundamento desnecessário. E, quando tentamos entender o ‘gênio incompreendido’, parece que caímos no reduto de pilhérias que ronda Lulu.

“The View”, o primeiro single do disco, fez reacender minimamente a distopia roqueira da era pós-Andy Warhol no Velvet Underground: tudo bem que Lou Reed aparece como um pregador ignóbil, mas é suportado por backings bem inspirados de James Hetfield. Sem falar que ela tem apenas um pouco mais de 5 minutos, pegando emprestada a estética microfônica do Sonic Youth pós-anos 1990 (pegou emprestado e abusou, diga-se de passagem). E aqui, acredite, 5 minutos soa como interlúdio.

90 minutos para um disco é arriscado até no campo da música clássica ou jazz. Fãs de rock, então, ficarão aos frangalhos tanto com o desgastado rumo sonoro trilhado pelos músicos, como pelo tema explorado. Sem falar que a voz do Lou Reed dá náuseas em vários momentos. Ainda assim, escute. Você vai se sentir um vitorioso após se dar conta do esforço que é ouvir Lulu.

“The View”

Melhores Faixas: “The View”