
Gravadora: Young Money/Cash Money/Universal Republic




“Não há ninguém mais que você pode odiar tanto quanto eu, se você odeia o dinheiro ou o sucesso”, disse certa vez o rapper canadense Drake em entrevista ao The New York Times. Tamanha insolência, vinda de um cantor de rap, não é novidade alguma. Mesmo para um cantor ‘novato’, que lançou seu primeiro disco no ano passado (Thank Me Later), após gravar três mixtapes e virar o protegido de Lil’ Wayne e Jay-Z.
Ainda assim, ele é diferente. Capta os mesmos aspectos de seus contemporâneos ao investir pesado na produção do disco e conta com diversas participações ilustres. Mas é apregoado à densidade e aos sentimentos mais sensíveis que, por mais que sejam contornados pela rispidez de frases como ‘gritar com garotas asiáticas’, de “Over My Dead Body”, revelam um rapaz que prefere ficar à revelia da solidão, mesmo rodeado de pessoas.
Quando parecemos que vamos nos surpreender com as batidas que sugerem autoestima em “Headlines” (clara influência de Kanye West aí), ele já fala em pedir desculpas. E percebemos que a repetição das batidas atinge um cansaço que justifica toda a melancolia do músico de 25 anos. “Nenhuma dúvida em minha mente; isso me faz sentir melhor”, finaliza Drake na canção, longe das batidas, num spoken-word comovente.
Há também a latente proximidade entre o rap e dubstep em “Crew Love” (com The Weeknd) e “Cameras/Good Ones Go”. Mas vemos que essa junção fica bem-sucedida quando o ritmo negro prevalece, como em “We’ll Be Fine”. O tom de sua voz lembra bastante seu parceiro Lil’ Wayne, e Drake fala das maleficências de se viver em uma cidade grande – experiência que tornou-se uma frustração pra ele em um passado não muito distante: por estar no sucesso, já foi alvo de assaltos em sua cidade-natal. Ele até chegou a cooperar com a polícia para a captura dos meliantes, algo nada típico para um músico de rap.
O pop é um caminho que Drake já pode dizer que domina, também. Na faixa-título, ele se junta a Rihanna, e as batidas sádicas acompanham o refrão da cantora. As vozes de fundo de Gil Scott-Heron nos fazem pensar que Drake estaria homenageando o cantor, que faleceu em maio deste ano. (Se você ouviu o ótimo disco I’m New Here, lançado ano passado, irá fazer uma conexão imediata com “I’ll Take Care of You”. Seria essa uma releitura mais pop da canção de Scott-Heron?)
“Lord Knows”
“Make Me Proud”, canção de autotune que conta com a participação impactante de Nicki Minaj, é um pop mais afastado. Tem batidas secas de bateria e guitarras lineares, mas eles levam a sério esse negócio de ir ‘miles away’. “Lord Knows” começa com vocais gospel, mas parte para batidas nostálgicas excêntricas. É um R&B em flerte com o rock; um pop megalomaníaco, que ainda dá brecha para a diversão quando ouvimos Rick Ross dizer que é o ‘único negro gordo em uma sauna com judeus’ (Drake é judeu).
Stevie Wonder contribui com sua gaita na reflexiva “Doing It Wrong”, estabelecendo uma ponte entre a estranheza de sons modernos e o R&B setentista. Lil’ Wayne, que não poderia ficar de fora, canta em duas canções: na obscura “The Real Her” e em “HYFR (Hell Yeah Fucking Right)”, com rimas ágeis de Wayne e sintetizadores alienantes de Drake.
O dinheiro e o sucesso podem ser consequência, ou mesmo pedras no sapato de um artista talentoso como Drake. Enquanto os sentimentos continuarem sendo seu alvo de perseguição, podemos vislumbrar um artista que continuará no topo e atingirá o panteão rapidamente.
Ele acha o mundo superficial demais; bom para ele e para nós que ele continue pensando assim.
Para ouvir o álbum Take Care na íntegra, clique aqui.
Melhores Faixas: “Headlines”, “Take Care”, “We’ll Be Fine”, “Lord Knows”, “Doing It Wrong”.
