01 Born Under Punches (The Heat Goes On) 02 Crosseyed and Painless 03 The Great Curve 04 Once in a Lifetime 05 Houses in Motion 06 Seen and Not Seen 07 Listening Wind

08 The Overload

Gravadora: Sire
Data de Lançamento: 8 de outubro de 1980

Alguns apontam a produção de Brian Eno como o grande fator para que este disco se tornasse uma obra-prima. Outros acreditam que as composições complexas e as brincadeiras vocais de David Byrne se sobressaem ao disco mais bem-sucedido dos Talking Heads.

Valido todas as teorias. Justamente porque Remain in Light é tão múltiplo em suas referências musicais e artísticas que não dá pra dar mais crédito a um ou outro envolvido. O disco elevou a new wave e, por si só, já alçou o Talking Heads como uma das melhores bandas dos anos 1980.

A história é mais ou menos assim: depois de ficar ligeiramente conhecida no CBGB após abrir para os Ramones, a banda gravou um disco para se alocar na cena punk. O resultado é Talking Heads: 77, que revelou o maior hit da banda: “Psycho Killer”.

Foi a partir do próximo disco, More Songs About Buildings and Food (1978), que a banda iria trabalhar com Brian Eno. Ele agregou bastante não apenas por ter trabalhado com a Roxy Music, que muito influenciou os Heads. Graças às ideias futuristas de Eno por conta de grande experiência acumulada em pouco tempo (ótimos discos solo, fase Berlim de David Bowie), a banda começou a agregar novos elementos: música africana, caribenha e jazz, para citar algumas.

Foi nesse clima que surgiu Fear of Music (1979), um disco ambicioso, mas que ainda carecia de um tratamento mais pulsante.

Veio Remain in Light, e com ele um caldo mais rítmico. Para cada grito intrépido de Byrne, há uma resposta imediata num slap forte de baixo (“Crosseyed and Painless”), teclados futuristas (coisa de Eno em “Born Under Punches (The Heat Goes Down)”) e até barulhos de elefantes (“Houses in Motion”).

Antes de chegar ao disco, Byrne e Eno se aprofundaram na dialética da música africana. De acordo com os produtores, a grande influência veio de African Rhythm and African Sensibility, do musicólogo John Miller Chernoff, que explora a forma musical utilizada em comunidades de vários países africanos. Para colocar suas ideias de composição, Byrne foi aconselhado pelo músico e jornalista David Gans a trabalhar conceitos livres, conectados por ideias (cujo maior exemplo é a experimental “Seen and Not Seen”).

A faixa inicial, “Born Under Punches”, já mostra um grande choque vocal. O agito fica por conta do baixo acentuado que revela um funk desfigurado tanto pelos vocais esquizofrênicos de Byrne, como pelo hibridismo exacerbado que inclui synths acelerados, percussão tribal e trejeitos pop.

A mais conhecida é “Once in a Lifetime”, principalmente pela letra que diz: ‘Você se vê em uma linda casa/Com uma bela esposa/E você se pergunta: como cheguei até aqui?’. Analisando hoje, com o relativo conhecimento que temos do passado, fica difícil imaginar como esta canção não se tornou porta-voz de uma geração artística que ainda estava procurando se estabelecer. Havia o punk, o disco e a new wave. As coisas mudavam, mas poucos deviam ter senso de direção. ‘O mesmo como sempre foi’, responde Byrne repetidamente aos perdidos. Muitos estavam certos de que, não, a coisa era e deveria ser diferente. E realmente era e foi. Mas Byrne martela contra, e o faz sabiamente: tudo estava dividido – e sempre foi assim. No entanto, ‘uma vez na vida a água flui do subsolo’. Se é pretensão dos Heads ser essa água, fica a dúvida. Mas é bom que uma canção como “Once in a Lifetime” suscite outra reflexão sobre o que realmente foram os anos 1980.

“The Great Curve” é a canção que melhor sintetiza a estética resultante de referências britânicas, futuristas, africanas, caribenhas e da new wave. A percussão é a grande sacada que apimenta o ritmo da canção. A inserção das guitarras, vozes de fundo, baixo e teclados revelam não uma mistura, mas um diálogo: mais que um experimento, a música é um achado. Uma conexão bem-sucedida, que ainda finaliza com um estupendo solo de guitarra de Adrian Belew.

No momento em que entra o segundo lado do disco, ele vai se tornando mais obscuro e atmosférico – apesar de ainda manter a estética afro-new-wave, se pudermos chamar assim.

O próprio título diz ‘Permanecer na Luz’, mas aos poucos ela vai se apagando: na penúltima canção, “Listening Wind”, os Heads dão o presságio de que cabe à natureza decidir (por meio de uma crônica que fala de camponeses russos sendo atacados por norte-americanos). Quando chega “The Overboard”, a banda soa tão melancólica como o Joy Division em seus momentos mais depressivos. Começa na luz, termina na escuridão. Assim é a vida e assim é a obra-prima dos Talking Heads.