01 Lonely Woman 02 Eventually 03 Peace 04 Focus On Sanity 05 Congeniality

06 Chronology

Gravadora: Atlantic
Data de Lançamento: 22 de maio de 1959

Já se percebe que Ornette Coleman é um artista pretensioso logo pelo título de seus discos: Something Else (1958), Tomorrow is the Question (1959), Change of the Century… (1960) – só para citar os primeiros trabalhos.

Parece puro egocentrismo, mas cada disco é como um alvo mentalizado pelo próprio jazzista para renovar o gênero e levá-lo a lugares onde nem mesmo ele deve ter planejado antes de empunhar o saxofone.

The Shape of Jazz To Come é o maior exemplo de objetivo traçado.

Terceiro disco da carreira do saxofonista, The Shape of Jazz mostra o bem-sucedido encontro de Ornette com notas não-estabelecidas, que mais tarde seriam conhecidas como ‘harmlodics’, onde a harmonia entra em sintonia com a melodia num jogo estético que reprocessa blues, modal e, principalmente, o bebop de Charlie Parker, uma de suas maiores influências.

É a partir de faixas como “Focus On Sanity” e evidentemente em “Eventually” que foi estabelecido o avant-garde, gênero que assombrou os puristas no meio do jazz e influenciou posteriormente músicos como Captain Beefheart, Lou Reed e Scott Walker.

Partindo para o campo musical, o que se percebe são tentativas de levar os instrumentos para planos não-convencionais. Claro que isso exige virtuosismo além da técnica – e é aí que o ouvinte encontra os primeiros sentidos nos longos sopros de uma “Eventually” e pode se surpreender com a brincadeira feita em “Congeniality”, onde a banda ameaça começar a jam por diversas vezes até que a bateria de Billy Higgins impõe repentinas paradas. Em diversos momentos o compasso é ameaçado, deixando o ouvinte atônito: ‘o que vem aí? Explosão? Vão brincar com meus sentidos’. (Assim como Ornette, não há nada a dizer. Mas a pulsação vai por este caminho.)

Por mais que seja simples anunciar, chegar a The Shape of Jazz to Come não foi tão fácil. Ornette era um simples operário antes de entrar no meio musical. Tocou em bandas de R&B como Pee Wee Crayton e gravou o primeiro álbum como bandleader em 1957. Experimentador nato, encontrou no trompetista Don Cherry o parceiro perfeito para emoldurar notas que, em pouco espaço de tempo, dialogam entre si, se chocam, batem, atropelam e depois se encontram novamente. O ponto de partida e chegada era a tonalidade central.

Apesar de parecer mera bagunça ou virtuosismo desnecessário de músico para músico, The Shape of Jazz prova que é possível estabelecer uma nova direção musical e ainda assim causar, além do frisson, emoção. Coleman sabia disso, e foi sábio em escolher uma estrutura como a de “Lonely Woman”, uma balada de acordes ligeiramente fugidios, como primeira faixa do álbum para ambientar o ouvinte aos poucos.

Enquanto “Eventually” é pura explosão, “Peace” se encarrega de diminuir a tensão ao ensaiar um cool-jazz. Provavelmente incluir uma faixa dessas (linda, por sinal) era uma amostra de que Ornette Coleman tinha o controle das rédeas. Ele poderia ser um Stan Kenton ou partir para uma linha Kind of Blue se quisesse. No entanto, uma audição mais atenta clarifica as coisas: mesmo ali ele está imbuindo a melodia de improbabilidades nos acordes, ainda que seja de forma menos radical do que em outras faixas.

Para um artista que estava em início de carreira, assimilar o anterior de forma admirável era o primeiro passo para que críticos e aficionados entendessem aos poucos o ritmo e o contexto dessa mudança. Ornette Coleman colecionou alguns xingamentos e termos maledicentes como dono de ‘falsa arte’ após o lançamento de The Shape of Jazz.

Hoje em dia a importância deste disco é indubitável: chegou a influenciar grandiosos do gênero, como John Coltrane e Albert Ayler, ultrapassando até as barreiras do pop e do rock, que chegaram a assimilar o avant-garde para se reinventarem esteticamente com o passar dos anos.