O Raça Negra é como aquela instituição que fica endereçada em um campo do nosso cérebro que já deve estar desativado por um bom tempo – seja pela nostalgia, ou seja porque realmente queremos que ele fique lá escondidinho mesmo.
Em tempos de escola, falar que gostava de Raça Negra era mais ou menos como admitir que gosta da carreira solo de Thiaguinho, ex-Exaltasamba (estou seguro de que não gosto!), ou que escuta funk carioca proibidão quando se está no quarto.
Além de ser uma adequada vitrine para as bandas que se arriscaram no tributo, Jeito Felindie provoca acaloradas discussões: será que somos justos com o legado do Raça Negra?
Nos anos 1990, o público que ouvia Raça Negra era majoritariamente feminino: seria pelas letras de amor, dor de cotovelo, desilusões? Engraçado: por que tanta gente se identifica com canções como “Sentimental” (Los Hermanos) ou “Respirar Você” (Capital Inicial), mas parece ter um certo receio de admitir que se emocionava na infância/adolescência/início da fase adulta com versos como ‘Não dá pra entender/Porque fiquei sozinho agora’ (“Te Quero Comigo”), ‘Não sei dizer/O que vou fazer/Pra me livrar/Desse amor’ (“Quando Te Encontrei”), ou ‘A força das ondas/Vai e vem/Traz no pensamento/A saudade de você’ (“Jeito Felino”)?
Lembro de ouvir minha mãe cantando todas aquelas músicas enquanto arrumava a casa, preparava o rango, me dava broncas pra tomar banho depois de passar o dia inteiro na rua…
Por isso, quando dei o play na primeira música deste já badalado tributo Jeito Felindie, organizado por Jorge Wagner, do site amigo Fita Bruta, senti todas aquelas memórias idas se revolverem com a entoação do primeiro verso.
O site convidou 12 bandas do cenário independente para interpretar os maiores clássicos do grupo mais conceituado de pagode de nossas terras (se você não achava isso, logo vai passar a achar, relaxe…). E cada banda colocou um pouco de suas características: uma produção experimental aqui e um arranjo inusitado acolá fizeram com que o tributo escapasse daquele sentido de ‘covers pretensiosos’.
Na voz de Lulina, “Cigana” abre o tributo colocando guitarras densas para dar um clima down que combina com os versos: ‘Você parece estar feliz/Pisando sobre mim’.
O clássico termo ‘didididiê’ fica por conta da voz da carioca Vivian Benford, que transformou “Cheia de Manias” em uma MPB fluida, de fácil acompanhamento – uma das maestrias do grupo liderado por Luiz Carlos.
Teclados e pianos Rhodes se mostraram um bom suporte nesse tributo: Minha Pequena Soundsystem capturou os acordes certos no instrumento em “Te Quero Comigo” e o Amplexos jogou um pouco do peso para formar um dub-soul impecável em “Quando Te Encontrei” (uma das melhores versões deste tributo). Ou mesmo quando programações lembram o instrumento, caso da versão lo-fi de Nana para “Sozinho”.
Elogio parecido pode ser atribuído às bandas que preferiram investir nas guitarras – como a versão surf music do Radioviernes para “Você Não Sabe de Mim” (com direito a vocais nebulosos) e os riffs roqueiros de potência na versão de Nevilton para “Vida Cigana”.
Além de ser uma adequada vitrine para as bandas que se arriscaram no tributo, Jeito Felindie provoca acaloradas discussões: será que somos justos com o legado do Raça Negra, um dos maiores fenômenos mercadológicos dos anos 1990 pra cá? Nossa geração, por mais que não admita, carrega a influência do maior grupo de pagode de todos os tempos? Raça Negra é tão rock’n roll quanto Autoramas? Marcelo Camelo é tão pagodeiro quanto Luiz Carlos? O indie e o pagode andam lado a lado? Você realmente gosta do Raça Negra? Chegou a hora de criarmos vergonha na cara e soltar a voz ao som de “Cigana” e “Me Leva Junto Com Você”?
Enfim, ouça na íntegra o Jeito Felindie – Tributo ao Raça Negra. Para fazer o download do tributo, visite o Fita Bruta.
Antes que você saia procurando que nem louco cada uma das canções do Raça Negra, o Na Mira fez o favor de criar uma playlist do YouTube com as versões originais de cada faixa do tributo. É só dar o play na primeira e fazer aquilo que quer fazer (baixar a discografia?) enquanto as músicas seguem na sequência. Emocione-se:
“Cigana”
“Cheio de Manias”
“Te Quero Comigo”
“Deus Me Livre”
“Maravilha”
“Quando Te Encontrei”
“Vida Cigana”
“Você Não Sabe de Mim”
“É Tarde Demais”
“Jeito Felino”
“Me Leva Junto Com Você”
“Sozinho”
