Gravadora: Sinewave
Data de Lançamento: 14 de abril de 2014
É possível mapear a nova produção musical brasileira somente a partir de bandas instrumentais. Note-se que há muito mais grupos sem vocal ou algo a dizer em terras tupiniquins que ‘cantoras brotando em árvore’. Da transgressão afrobeat do Burro Morto ao acid-rock sulista do The Experience Nebula Room, o ato musical de não falar tem soado esteticamente mais interessante que qualquer discurso autorreciclado.
Uma das principais glórias desses grupos instrumentais é subverter qualquer noção de identidade com seus sons. Você não vai ligar Macaco Bong a Cuiabá (MT) ouvindo Artista Igual Pedreiro (2008); se o Rio de Janeiro é uma cidade tão maravilhosa, porque geraria algo tão disfuncional e caótico como o Sobre A Máquina? O que diabos o som do Strobo tem a ver com Belém, do Pará?
Com o Huey, entretanto, tal conexão sonora é parcialmente permitida. Claro que ouvir petardos como “Por Detrás de Los Ojos” e “Sex & Elephants” não te trará nenhuma noção geográfica. Você está diante de uma espiral roqueira que passa pelo hard-rock, stoner-rock e metal. Essa urgência musical até tem a ver com São Paulo, mas se houver alguma reação nostálgica, por exemplo, nas passagens de “Nice Weather For the Carnival”, esse quesito é bem pessoal.
A permanência barulhenta dos riffs de guitarra estão num irresistível continuum: isso entrega, sim, um estado de espírito, mais que estado como localidade.
É a vontade da Huey que atiça a vontade do ouvinte de vibrar com a arrepiante direção musical de cada faixa de Ace.
Pode-se fazer de “Baby Monstro” ou “Valsa de Dois Toques” tentativas de single. Qualquer fragmento de Ace revela a eminente potencialidade desses paulistas que, de certa maneira, merecem protagonismo nessa cena instrumental.
Se por um lado as dificuldades mercadológicas nesse gênero impedem que uma joia como a Elma, por exemplo, reacenda a chama perdida do rock brazuca, por outro esse ‘punch’ contagiante da Huey tem força para carregar, tal qual uma locomotiva, uma cena inteira.
Importante dizer que nada em Ace é esteticamente novo: você já se deparou com a estrutura musical de “Pedregulho” em alguma faixa do Sebadoh e pode perceber a influência dos conterrâneos da Herod (ex-Herod Layne) em “Samuel Burns” (vale lembrar que o selo Sinewave, que divulga o disco, é de propriedade de dois integrantes da banda de post-rock paulistana).
Todavia, essas lembranças musicais devem ser encaradas risivelmente. São mencionadas apenas como uma direção. A competência da banda, mais que a originalidade, é sentida principalmente quando se ouve Ace de cabo a rabo. Porque não importa que grupo, rótulo ou localidade seja utilizada na tentativa de definir a Huey; o importante é que esse clima rejuvenescedor e vigorante torne-se influência para impulsionar essa interessante cena, que não precisa de palavras para se mostrar presente.
A música instrumental brasileira permanece firme e forte – e o Huey veio para dar mais gás e, possivelmente, domar as rédeas.
