Gravadora: iAm Other/Columbia
Data de Lançamento: 3 de março de 2014

Não somos acostumados a ver Pharrell Williams como protagonista justamente porque ele fez carreira como o habilidoso produtor que esteve ao lado da maioria dos artistas do pop e R&B que alçaram alta popularidade.

Afeiçoando-se mais ao meio-termo que aos exageros, chamar Pharrell de ‘sortudo’ soa não só como injustiça; soa como disparate. Porque não dá pra chamar de ‘sortudo’ um cara que acumula 7 Grammies e tem no currículo coautoria e participação de diversos hits, junto ao lado de nomes que vão de Snoop Dogg a Madonna.

Apesar de aliar o talento ao sucesso, o cantor quer dominar de vez. Ainda mais que o período de In My Mind (2006), que colocou a faixa “Can I Have It Like That”, em parceria com Gwen Stefani, nas paradas da Billboard entre os 10 primeiros.

O segundo álbum, G I R L, nem chegou direito e já veio estrondoso com o hit “Happy” que, além de ser uma das músicas mais baixadas em 2014, lhe rendeu um Óscar pela trilha do filme Meu Malvado Favorito 2.

De tanto glamour e reconhecimento musical, sob qual prisma deveríamos ouvir G I R L? Se pensarmos em ingenuidade, bom, dá pra balançar ao som de “Hunter”, “Brand New” (com participação de Justin Timberlake) e “Come Get It Bae” (com Miley Cyrus). São faixas legais, divertidas e… só.

O próprio conceito de ‘divertimento’ em G I R L adquire tons meramente adocicados. Se Pharrell significa grandeza com moderação, este é o disco em que os hipsters descoladões e os charmosos podem se juntar na mesma pista para balançar os cabelos.

Para quem aproveitou a onda de Random Access Memories (2013), G I R L veio em boa hora. Soa como continuidade do bis “Lose Yourself to Dance” e “Get Lucky”, que tocaram até enjoar nas rádios, TV, baladas, no carro dos outros…

A vibe da guitarra de Nile Rodgers (que não participa do disco) é sentida novamente em faixas como “Marilyn Monroe” e “Hunter”, que soam tão novidadeiras quanto se deparar como um doce de abóbora pela primeira vez. É bom: você come um pedaço, outro, outro e chega uma hora que você enjoa e não quer mais saber.

Apesar de G I R L ser um disco festivo, Pharrell nos entrega uma boa porção de R&B de qualidade. Uma delas é “Lost Queen”, onde a percussão mbube sul-africana simula a aceitação de uma tribo para a entrega do compositor que fica pasmo com a sobrenaturalidade da garota: ‘Embora o meu planeta seja cheio de guerra/Você me faz imaginá-lo como se fosse um sonho/Espero que os homens nunca te achem.’

“Gush” também favorece a nova seara do gênero; uma música sedutora, que evoca a cantada que um rapaz solteiro tentaria ao se deparar com uma garota bonita. Os arranjos em contraste ao contínuo riff de guitarra dão um ar de luxúria que, se por um lado padece do mesmo clichê no gênero nos últimos 15 anos, por outro garante rara sofisticação ao termo ‘Você quer ficar suja? Então venha!’.

“Gust of Wind”, a parceria ‘devolvida’ com o Daft Punk, não é tão chiclete como as lançadas em R.A.M., mas se encaixa no latente conceito de G I R L. Direto e reto, Pharrell mune de seus principais aparatos para impressionar. Como faria com a mulher que deseja, ele quer nos conquistar e grudar. O problema é: todos se sentem seduzidos pelo mesmo tipo de paquera, principalmente um que já é repetido a nossos ouvidos durante mais de uma década?

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Ouça na íntegra o novo disco de Pharrell: G I R L.