
01 Manchetes da Solidão 02 New Country 03 Bucolismo 04 Pode Acontecer 05 L.A. Disco 06 Eu Vou Sorrir Pra Quem é Gente Boa 07 A Nuvem (part. Lurdez da Luz) 08 St. Marks Theme 09 Bicho 10 Charles Chacal 11 Roots Are For Trees
12 O Primeiro Dia
Gravadora: Independente




“Manchetes da Solidão” fala de um ‘moinho girando sozinho’ em clara menção a um clássico de Cartola.
Em “New Country”, o gospel vai de encontro com a psicodelia num funk/R&B marcha lenta que evoca There’s a Riot Goin’ On (1971), de Sly & Family Stone.
O próprio nome “Bucolismo (Um Dia No Campo)” entrega o que virá: uma melodia melancólica, ‘uma fase estranha’. Esse trecho é o haicai inspirador do segundo disco da banda paulistana Garotas Suecas.
A festa acabou, mas isso não quer dizer que a animação se esvaiu.
Feras Míticas é um disco urbano, feito por uma banda urbana que não tem medo de percorrer seja qual metrópole for.
Na própria “Bucolismo”, com voz do baterista Nico Paoliello, o Garotas Suecas estranha a longevidade do campo, como se a monotonia daquele lugar deixasse o músico atônito. Não funciona para todos aquele famoso jargão citadino de que o campo serve para relaxar.
A sensibilidade da banda como um todo ficou mais exposta e, se a participação vocal de cada integrante significa que o processo ficou mais democrático, que assim seja.
A tecladista Irina Bertolucci não tem medo de expor vocais taciturnos em “Pode Acontecer” e na acústica “O Primeiro Dia”. Além de “Bucolismo”, Nico canta junto com o guitarrista irmão Tomaz Paoliello em “L.A. Disco” que, se por um lado é a que melhor conecta com a estreia Escaldante Banda (2010), por outro traz uma participação gringa no pente. É quando entra Kid Congo Powers, fundador dos grupos The Cramps e The Gun Club.
Outras participações complementam o disco: Lurdez da Luz se impõe como o trovão de “A Nuvem”. Aqui, o trovão carrega uma beleza imponente, evocado por Guilherme Sal e Irina. A ideia passada é que nem tudo é céu e estrelas. E fica a questão: por que a nuvem não completa a tríade?
Caiu como luva para a banda a composição “Charles Chacal”, música inédita dos Titãs escrita por Sérgio Britto. Paulo Miklos traz mais ira no momento em que as feras mostram os dentes: ‘Matar é um imenso prazer/Porque é o mais sofisticado’. Mas, como estamos falando de uma banda mais sentimental, o Garotas Suecas morde e assopra. Isso porque ela se apropria da ‘monstruosidade’ do personagem retratado na mesma linha humorística de um “Bat Macumba” (canção que a banda registrou para uma coletânea da gravadora Vampi Soul, da Espanha).
Aí, já dá pra sacar: o Feras no título não tem nada a ver com raiva, mas sim com a gíria urbana de alguém que é bom no que faz (a capa enfatiza tal propósito). O mesmo acontece com “Bicho”, onde vale a pena deixar-se levar pela percussão de Matheus Prado. Apenas a letra poderia ser mais instigante: não faria mal colocar mais intensidade nos momentos de bronca (‘engole o choro, segura o tranco e vai à luta’) ou pedir metais mais pesados no pegajoso refrão.
Mesmo que não seja tão inovadora para quem já escutou muito Beach Boys, “Roots Are For Trees” é a faixa em que a banda melhor questiona seu lugar de pertencimento. Fugindo de qualquer conotação ‘de raiz’, a banda se diz de qualquer lugar.
A composição em inglês dá não apenas universalidade, mas também é a que melhor casa com a melodia toda inspirada em Brian Wilson. ‘Tentei duramente encontrar/Encontrar alguma paz mental’, canta Sal. Mais uma vez a banda fala de preencher a ‘alma’, mas de forma diferente do que fez no disco anterior. O solo melódico da guitarra de Tomaz ganha um sentido elegíaco, como se quisesse fazer com que o ouvinte flutue, vá para o céu. É a faixa em que o azul do disco tem melhor representatividade.
Ainda que a animação de Escaldante Banda esteja incrustada no modo de composição da banda, Feras Míticas leva o otimismo para uma esfera mais reflexiva.
O hibridismo dos arranjos impressiona e agrada quem já é habituado à levada Jovem Guarda/soul/anos 1970 do Garotas Suecas, mas é o uso do tempo musical e a captação de um clima mais nebuloso que faz de Feras Míticas um passo interessante nessa jornada musical que não tem medo de encontrar a luz e a alegria no fim do túnel.
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A seguir ouça Feras Míticas, do Garotas Suecas, na íntegra:
Melhores Faixas: “New Country”, “A Nuvem”, “Roots Are For Trees”.
