Laurel Aitken já gravou a maioria dos ritmos nascidos na Jamaica

Bob Marley pode ter sido um dos músicos ritmicamente mais consistentes não só da Jamaica, mas em níveis globais. Laurel Aitken também é associado à pequena ilha da América Central, mas teve uma trajetória completamente diferente do rei do reggae.

Considerado o rei do ska, gênero em que mais se destacou, principalmente após o lançamento de Ska With Laurel, em 1965, já “viu passar todas as modas e estilos importados nascidos na Jamaica”, como disse o produtor Toni Face. “Ele gravou de tudo: mento, calipso, jazz, boogie, rhythm and blues, ska, bluebeat, reggae, rocksteady, skinhead reggae, roots, deejay, toasting, lovers rock e outros estilos mais”.

A coletânea The Story So Far foi lançada apenas em 1995 e mostra uma compilação de um dos períodos mais dançantes de Laurel Aitken. É que ele já nasceu com o swing incrustado. Afinal, é filho de um jamaicano com uma cubana, e não tinha como negar o espírito caribenho da ilha.

No início dos anos 60, quando o ska estourou, os produtores musicais jamaicanos decidiram explorar ao máximo essa vertente. Queriam fazer o povo dançar, mesmo diante da repressão de um governo que se tornava cada vez mais dependente dos interesses americanos. A Jamaica tinha acabado de se tornar independente da colônia inglesa e vivia tempos difíceis diante da repressão policial ante os adeptos ao rastafarianismo, que disparavam críticas à subserviência do primeiro-ministro Alexander Bustamante aos Estados Unidos.

O reggae foi um ritmo que se formou a partir do ska, e acabou criando uma divisão de tribos urbanas que se dialogavam entre si. Os rastafaris se uniram ao som de Peter Tosh, Bob Marley e King Tubby. Na Jamaica, o que predominava ainda era o ska, e as canções de Laurel conquistavam os ouvintes – como “Sally Brown”, que tinha uma pegada mais rápida com resquícios do mento já explorado anteriormente em “Boogie In My Bones”.

Mas o verdadeiro upgrade do ska ocorreu na Inglaterra, com o investimento pesado de gravadoras como a Island e a grandiosa Blue Beat, responsável por levar ao 1º Mundo as virtudes sonoras dos artistas do 3º Mundo. Foi lá que nasceu o movimento dos skinheads, que nada têm a ver com o movimento neonazista na qual muitas vezes é erroneamente associado. Os skinheads gostavam de ouvir ska, usavam vestimentas nada convencionais, pendiam para a visão política de esquerda e também adoravam as novidades da música negra (soul, R&B, funk).

Apesar dessa imensa profusão de ritmos no som de Laurel, a essência cravada é o jazz e o blues. É som de bar, boteco mesmo, assim como os áureos períodos do jazz antes da invasão do bebop.

No som de Laurel Aitken, se vê a energia dos músicos, seja no sax rítmico ou nos vocais limpos do músico. É uma orquestra que une a estética cubana ao vigor jamaicano. Exemplos não faltam: “Zion City”, “Rudi Got Married” (que mais parece uma marcha) e “Roll Jordan Roll” (uma balada mais densa que ganha corpo com os backing vocals bem colocados), só para citar.

Antes de ser mais um disco de ótima qualidade, The Story So Far é o resumo da obra de um artista grandioso, que também teve um alcance gigantesco fora da Jamaica. Sob outra perspectiva, é claro.

Ouça abaixo o álbum na íntegra: