
01 No One Receiving 02 Backwater 03 Kurt’s Rejoinder 04 Energy Fools the Magician 05 King’s Lead Hat 06 Here He Comes 07 Julie With … 08 By This River 09 Through Hollow Lands (For Harold Budd)
10 Spider and I
Gravadora: Polydor
Data de Lançamento: dezembro de 1977
A habilidade mais enfatizada de Brian Eno é a de produtor, mas alguns de seus discos solo foram a ponta de influência de muitas vertentes musicais, do pop ao experimental.
Com o Roxy Music, o britânico mostrou que o pop poderia ser muito mais interessante com uma injeção maior de hibridismo, tensão e pianos/teclados jazzísticos.
Se por um lado as brigas com Bryan Ferry culminaram com o fim da verve criativa da banda, por outro deixaram duas contribuições importantes: o ótimo desfecho de Eno com For Your Pleasure (1973), considerado o melhor disco do Roxy Music, e o início de uma carreira solo que começou bem lisérgica com Here Come The Warm Jets (1974).
Até chegar ao quinto disco, Before And After Science, Brian Eno conectou-se com muitas outras cenas musicais.
Discos como Another Green World (1975) e o já mencionado Here Come The Warm Jets são usualmente citados como seus melhores discos na década, mas as contribuições com Robert Fripp – além de trabalhos com John Cale e a banda alemã Cluster no período – foram cruciais para que Eno encontrasse uma forma de dialogar e transportar a correnteza emergente do prog-rock e do krautrock (com muita coisa do ambient), subgêneros que em pouco tempo despertariam interesse em grandes artistas que procuravam se reinventar esteticamente. (Dois exemplos: David Bowie, que chamou Eno para colaborar na sua fase Trilogia de Berlim em Low, ‘Heroes’ (ambos de 1977) e Lodger (1979); e o Talking Heads, que bebeu bastante da fonte de Before and After Science para conceber a obra-prima Remain in Light (1980), com produção de Eno.)
Before and After Science foi o disco mais trabalhoso de Eno até então. Ele projetou uma transição da acidez roqueira para a intensidade meditativa como se quisesse estabelecer uma ponte entre as experimentações do pop com as futuras ambientações sonoras que teriam início a partir do próximo disco, Ambient 1: Music For Airports (1978).
Para isso, ele separou o álbum em duas partes, que justificam os termos ‘before and after’.
No primeiro lado, faixas como “No One Receiving” e “Kurt’s Rejoinder” intensificam a pulsação do baixo, fazendo um esperto uso da percussão africana em atrito com teclados que vão do funk ao progressivo.
“Backwater” cria uma aproximação entre o lisérgico e orquestral e, fazendo valer a afirmativa de Eno de ser um disco ‘oceânico’, soa como a forte maré cujo grande aspecto é a força. “King’s Lead Hat” é um anagrama da banda Talking Heads, que naquela época começava a conquistar grandes audiências com o hit “Psycho Killer”, do debut Talking Heads’ 77 (1977).
Eno dá pistas do que vem no segundo lado com a instrumental “Energy Fools the Magician”, que exibe slaps sedutores no baixo de Busta ‘Cherry’ Jones (do Gang of Four). Mas é no clima ameno de “Here He Comes” que a correnteza do álbum vai se amainando.
“Julie With…” é mais densa: é a canção em que Eno tenta trazer a complexidade do oceano musicalmente. Isso ele consegue com mais eficácia na instrumentação melancólica do piano do que na composição, onde uma personagem está diante do mar, mas não sabemos em qual posição: se acima, se defronte, se na beira…
“By This River” nos faz lembrar momentos misteriosos da infância. Ou vai dizer que você nunca encarou o céu como se fosse uma continuação do mar, como a canção nos dá a entender?
“Through Hollow Lands” soa como um take pós-Cluster & Eno, lançado alguns meses antes. Os créditos aos arranjos de Fred Frith não podem deixar de ser mencionados – tampouco a sutileza instrumental no sax de Andy Mackay (parceiro do Roxy Music) e o slide-guitar do blueseiro Lloyd Watson.
Se devemos dizer que há beleza em Before and After Science, o melhor exemplo está na faixa de encerramento, “Spider and I”. Nela, Eno busca afastamento da horda de barulhos, sejam eles excruciantes como das grandes cidades, ou sutis como no campo.
De todo o hibridismo que tem início em “No One Receiving”, no fim sobram synths abertos, numa sonoridade que provavelmente serviu de influência para Vangelis no soundtrack de Blade Runner (1982).
“Spider and I” é uma trilha sci-fi, o desfecho de uma era que chegou ao auge para dar início a experimentações mais abstratas. É como se fosse o vislumbre que teria a posterior fase ambient como luz no fim do túnel. Por mais que soassem monótonos, álbuns como Ambient 1: Music For Airports (1978) e Ambient 4: On Land (1982) foram concebidos como laboratórios sonoros para, daquele período em diante, tangenciar uma boa parte de trabalhos de outros artistas que rumavam caminhos experimentais.
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A seguir ouça Before and After Science, de Brian Eno, na íntegra:
