
01 Church of Anthrax 02 The Hall of Mirrors in the Palace at Versailles 03 The Soul of Patrick Lee 04 Ides of March
05 The Protege
Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 10 de fevereiro de 1971
Um dos grandes nomes do minimalismo, Terry Riley aprendeu com o ‘mestre’ La Monte Young formas musicais não-convencionais, que uniam a forma de composição de John Cage a referências europeias, indianas e orientais.
O músico John Cale, por outro lado, uniu sua formação clássica aos experimentos com rock’n roll, integrando uma das bandas embrionárias mais importantes do século passado: The Velvet Underground.
Ambos os músicos tinham seu espaço no terreno avant-garde e, na década de 1970, se uniram para um disco que estava fora da zona de conforto de qualquer um dos dois.
Como estamos falando de dois multiinstrumentistas irrequietos, Terry e John se revezaram em teclados, pianos, órgão, viola, baixo, sax e harpsicord em um disco que não carrega nada de minimalismo, nem de rock. Quer dizer, quase nada.
A faixa-título dá indícios de um rock psicodélico, mais pela sonoridade a que o órgão ficou associada naquele momento. Tem acidez numa dosagem similar a de Ray Manzarek em seus arroubos mais inspiradores.
É nesse clima corrosivo que a dupla se sente à vontade para estabelecer conexões com free-jazz e música indiana com uma visceralidade de deixar até os já iniciados em suas respectivas obras impressionados.
Pois Terry e John já deixam bem claros na primeira faixa: a parceria desses dois experimentalistas teria que resultar em algo inovador e… experimental (tsc), desviando-se de qualquer pré-concepção musical.
O disco tem potencial de agradar numa mesma medida quatro tipos de público: aficionados por piano, aficionados por improvisação, aficionados por free-jazz e aficionados por música oriental.
“The Hall of Mirrors in the Palace” ainda tem o piano como peça central, mas pende para uma leitura mais sacra. É como colocar Bach com pitadas da música carnática de Purandara Dasa.
“Ides of March” já é mais incisiva: a firmeza de notas numa escala rígida de composição surte impactos fortes. A bateria de Bobby Gregg jorra uma fricção roqueira, e temos a faixa mais marcante do álbum.
Com vocais de Adam Miller, “The Soul of Patrick Lee” parece destoar o disco. Seria passível de críticas, mas se analisarmos bem, Church of Anthrax representa o destoamento da carreira tanto de Riley, como Cale. Um baita destoamento, diga-se de passagem.
A forma como “The Protege” inicia lembra um pouco o Velvet Underground, principalmente pela forma que o baixo é conduzido. Ante o soturno e obscuro, o piano surge como acalante, o clareador de tudo. São os dois minutos que melhor interligam os universos musicais de dois músicos de interesses similares, mas referências e experiências distintas.
Eles finalizam a faixa abruptamente, como se não quisessem dar continuidade a essa intersecção. Talvez a grande graça de Church of Anthrax para os músicos seria estabelecer fugas de seus respectivos espectros, afastando-se ao máximo de uma possível cena musical naquele momento – coisa que ainda se configurava, tendo em vista que os Beatles acabaram alguns meses antes das gravações e de que John Cale procurava novas frestas artísticas ao seguir em carreira solo, que teve início em Vintage Violence (1970) e atingiria interessante clímax com Paris 1919 (1973). (Seu último disco ao lado do VU, vale lembrar, é o aterrador e sensacional White Light/White Heat, de 1968.)
Terry Riley também daria continuidade aos seus experimentos com minimalismo e avant-garde. Ele, que deu passos estratosféricos com o seminal In C (1964), ainda iria distorcer a sonoridade do órgão em Shri Camel (1978) e gravaria com Kronos Quartet (clássico) e Rova Saxophone Quartet (jazz), além de fazer trilhas de filmes como Crossroads (de Bruce Conner) e Lifespan (Sandy Whitelaw), ambos de 1976.
Riley continua em atividade: seu último disco, Aleph, é de 2012.
E John Cale, vocês devem saber, também lançou em 2012 o controverso (para o Na Mira, bom) disco Shifty Adventures in Nookie Wood.
