Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 28 de janeiro de 2016

Escolher um EP para esta seção do Na Mira não é algo usual, mas quando se trata de Massive Attack, tratamos o assunto com mais destaque que lançamentos de Rihanna, Sia ou Tedeschi Trucks Band, por exemplo, ainda que cada um tenha seu raio de importância.

Mesmo que não dê pra colocar os demais lançamentos no patamar de Blue Lines (1991) ou do inatingível Mezzaninne (1998), é difícil se deparar com um lançamento ruim desse duo de Bristol.

O último álbum, Heligoland (2010), sugeriu ‘tiros’ pra diversos cantos, mas com um foco melancólico que deu à eletrônica do Massive Attack panorama similar à world-music – e isso é um elogio.

Primeira coisa a saber deste novo EP: Tricky volta a colaborar, algo que não fazia desde Protection (1994). “Take It There” é imbuído da atmosfera dos discos dos anos 1990, mas tá mais pra Maxinquaye (1995) que Blue Lines, por exemplo. A desenvoltura favoreceu o lado colaborativo entre a voz dele e a de Robert 3D Del Naja, num pensular que poderia figurar numa cena picante de séries dramáticas improváveis, tipo How to Get Away with Murder.

Ao colocá-la como encerramento do disco, o Massive Attack deixa um indelével gostinho de quero mais – principalmente porque as antecessoras também formam parte do appeal de Ritual Spirit.

Voltemos, então, ao começo. “Dead Editors” é alinhada com uma percussão de linha jazzística que instiga as rimas de Roots Manuva num modo Q-Tip querendo fazer grime (fico pensando se eles chamassem Stormzy pra uma parceria; não soaria nada mal).

G. Álbuns: Massive Attack | Blue Lines (1991)

A faixa-título flerta com o R&B de James Blake, só com timbragens mais híbridas. Aqui, o Massive Attack estende o alcance do trip-hop (que ajudou a desenvolver) num escopo quase nu, como se estivesse despido sua base principal e o revestido novamente, a partir dos novos ‘ventos’ da música eletrônica.

“Voodoo in My Blood” é a retomada daquele elemento ‘world-music’ associado a Heligoland. A selva em que o Massive Attack penetra parece rodeada de seres famintos desconhecidos, que apenas observam sua jornada, sem atacar. É como se o Massive Attack propusesse uma aventura, colocasse o ouvinte em primeira pessoa, pedisse o auxílio do coletivo de rap Young Fathers e utilizasse seu raro recurso de hipnotizar com um misto de beleza e impacto, a partir de melodias progressivamente hipnóticas.

No avançar da canção, o eco tenta se sobressair, e isso nos deixa mais curiosos, até que, por fim, nos alivia. Ninguém sai o mesmo depois disso.

Ritual Spirit contém apenas quatro faixas, mas são tão boas, que a expectativa para o que eles devem oferecer em um novo EP, produzido por Daddy G, que sai no 2º semestre, torna-se uma apreensão.

Mais que relevantes. Massive Attack permanece essencial, como sempre foi.

Outros lançamentos relevantes:

Sia: This is Acting (RCA)
Tedeschi Trucks: Band Let Me Get By (Fantasy)
Dr. Lonnie Smith: Evolution (Blue Note)
Matheus Brant: Assume Que Gosta (Independente)
Saul Williams: Martyr Loser King (Fader)

Errata:

• Ao contrário do que colocamos em trechos do texto e nas mídias sociais, o nome correto do disco é Ritual Spirit, não Ritual Union, como estava anteriormente. (Este último aí é do Little Dragon.)