
01 Mr. Self Destruct 02 Piggy 03 Heresy 04 March of the Pigs 05 Closer 06 Ruiner 07 The Becoming 08 I Do Not Want This 09 Big Man with a Gun 10 A Warm Place 11 Eraser 12 Reptile 13 The Downward Spiral
14 Hurt
Gravadora: Nothing/Interscope
Data de Lançamento: 8 de março de 1994
Aconteceu depois do Lollapalooza, em 1991. Trent Reznor ficou incomodado com a morna recepção de suas músicas que iriam integrar Broken (1992) e decidiu que teria que fazer diferente.
A raiva já estava praticamente incrustada no Nine Inch Nails desde a estreia Pretty Hate Machine (1989), portanto se as coisas teriam que mudar, nada de amainar. Se faltava agressividade, que injetasse mais. Se faltava vigor, bom, hora de resolver.
Na época do lançamento, Reznor disse que a principal influência de The Downward Spiral foi o icônico Low (1977), de David Bowie. As circunstâncias tinham lá suas semelhanças: o músico norte-americano estava numa fase de chapação de drogas, necessitava de uma urgente renovação musical e decidiu se isolar em um local distante para auxiliar na criação.
Ao invés de ir para Berlim, como fez o Camaleão do rock ao lado de Brian Eno, Reznor se hospedou por 18 meses em Los Angeles na antiga casa de Sharon Tate, atriz e ex-mulher do cineasta Roman Polanski que havia sido assassinada por Charles Manson em 1969. Depois de renomeá-lo ‘Le Pig’, o sinistro local lhe deu a climatização mórbida que procurava para algo que, não importasse o que fosse, nasceria estranho.
The Downward Spiral reúne os elementos que ficariam associados ao industrial – flerte entre o rock pesado e a música eletrônica – mas o verdadeiro impacto da obra residiria nas composições.
A faixa de início, “Mr. Self Destruct”, já inicia corrosiva até o osso, deixando o ouvinte estupefato com o que vem na sequência.
“Piggy” é o respiro antes da tragédia, o momento em que Reznor diz que ‘nada pode me parar’ enquanto sua pulsação se acelera de forma contígua (algo bem representado pela dinâmica de bateria, creditada ao próprio Reznor, que lembra ligeiramente o que poderia ser um ensaio de John ‘Bonzo’ Bonham).
O furor idiossincrático que marcaria o disco de forma irreversível inicia em “Heresy”, com uma letra nietzschiana que não carece de muitas explicações: ‘Deus está morto/E ninguém tá nem aí’. Claro que os setores religiosos ficaram espantados com a agressividade, mas essa faixa funcionaria como um mero rodapé diante da polêmica que se tornou “Big Man With a Gun”.
De início criticada pelo produtor Flood (que achava que ele estava indo longe demais com a proposta), “Big Man With a Gun” quase levou o Nine Inch Nails à martirização. Membros do Partido Republicano dos Estados Unidos a chamaram de ‘danosa’ à segurança do País, enquanto alguns rappers ficaram incomodados com o teor satírico de sua forma de composição. Além do mais, os estudantes Eric Harris e Dylan Klebold, que executaram o Massacre de Columbine, citaram o disco como símbolo de suas depressões, com todo o peso fixado nessa canção.
Não é por menos: “Big Man With a Gun” é incendiária, mas não tem nada a ver com hip hop, como diriam erroneamente. Tá bem mais pra heavy metal, como se Reznor tivesse levado a proposta de Streetcleaner, do Godflesh, a um extremo ainda maior. A imagem que remetemos é bem típica: um rapaz com espírito de Rambo atirando em tudo o que vê pela frente.
Claro que Reznor não tinha nenhuma intenção genocida quando compôs tal canção, mas, mesmo sem querer, ela tornou-se mira fácil para o Governo e outros setores conservadores culpar toda a música jovem dos anos 1990 pelo comportamento rebelde dos adolescentes.
The Downward Spiral expele muita fúria, mas não deve ser considerado um disco raivoso. Reznor aponta solstícios musicais em sua obra, como sugere “A Warm Place” (que parece um take do lado B de Low), e dirige sua testosterona ao sexo – por mais que seja ‘animal’, como diz o famigerado refrão de “Closer”, ainda hoje uma de suas canções mais impactantes.
(Sobre solstício: não podemos deixar de mencionar a balada “Hurt” que, de tão boa, foi entregue para que Johnny Cash a executasse como seu último respiro musical antes de falecer, em 2003.)
Tudo bem que o segundo álbum do Nine Inch Nails seja reflexo de um momento de perdas, remédios, drogas, dúvidas existenciais e desejo de surpreender o público (uma coisa que tornou-se maior do que o próprio Reznor poderia imaginar). The Downward Spiral adquiriu força inspiradora no derrotismo, na solidão e na desilusão. Os jovens daquele tempo tinham maior identificação com essa vertente musical do que hoje, talvez pela força representativa que o heavy metal e o grunge possuíam há 20 anos atrás.
Em um momento tão enfadonho de falsas felicidades compartilhadas a rodo pelas redes sociais, The Downward Spiral tem, hoje, mais o poder de afastar do que fazer-nos refletir sobre nossas próprias fúrias. Reznor já sofreu as consequências tanto da inspiração positiva, quanto negativa, de seu disco. Aqueles que cresceram naquela década viam neste álbum a trilha sonora perfeita da rebeldia, talvez de forma ainda mais intensa do que qualquer disco do Nirvana.
Ouvir The Downward Spiral nos faz rememorar tais momentos de solidão. A juventude ainda sente esse peso, mas parece não admitir. Por mais críticas que se possa fazer, Reznor tentou ser verossímil consigo mesmo ao expelir de vez seus próprios demônios. Da raiva, surgiu um dos discos mais representativos do que era ser jovem rebelde nos anos 1990. É extremo, sim, mas também é sincero.
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A seguir, um show do NIN no Madison Square Garden, turnê de The Downward Spiral (via Pequenos Clássicos Perdidos):
