
01 Coração 02 Porque Brigamos 03 Roupa Suja 04 O Peso dos Erros (ft. Tatá Aeroplano) 05 I Wonder 06 Sozinha 07 Jusqu’a La Mort 08 Ugabuga Feelings 09 Eu Não Tenho Medo da Chuva e Não Fico Só 10 You Wish, You Get It
11 Out to the Sun
Gravadora: Oi Música




Em uma de suas muitas frases sábias, Tim Maia disse: ‘todo mundo tem que ter um chifre um dia’. Ele incorporou tanto esse axioma, que entregou algumas de suas melhores canções (“Azul da Cor do Mar”, “Ninguém Gosta de Se Sentir Só”) justamente por não se sair bem-sucedido no jogo do amor.
A nova geração de músicos brasileiros sacou bem isso. Tanto que não tem vergonha de admitir a irrefreada influência que vem da música brega.
Aliás, é o cover de músicas bregas que tem salvado muitos discos da penumbra, como a bela versão de Otto para “A Noite Mais Linda do Mundo” no fraquíssimo The Moon 1111 e a admirável “Eu Tenho” dos mineiros do Dead Lover’s Twisted Heart (as duas de Odair José).
E junte a esse montão Céu, China, Curumin…
“Porque Brigamos” foi uma sábia escolha para o repertório do segundo disco de Bárbara Eugênia. No que seria levado aos extremos no vocal agudo de uma Tetê Espíndola, Bárbara impõe a leveza. Isso porque a guitarra de Edgard Scandurra e o órgão de Astronauta Pinguim já dão o ardor necessário para uma dor de corno vista sob nova perspectiva musical.
Deveria tomar uma sova aquele que trouxesse ‘desespero’ à Barbara. Mas com isso ela lida muito bem: o timbre sereno indica que, desse obstáculo, ela passa facilmente.
Encarar as travessuras sentimentais com classe: essa é a essência de É o Que Temos.
Quando divide um dueto com Tatá Aeroplano em “Roupa Suja”, ela nem ao menos denota sofrimento para chegar a um consenso com o par: ‘A gente já deu o que tinha que dar’.
Mesmo quando lhe é dedicada uma atmosfera intimista (com todos os clichês que lhe são cabíveis) em “Não Tenho Medo da Chuva e Não Fico Só”, Bárbara deixa bem claro que não precisa da preocupação de outrem. Sua leveza vocal busca leveza poética. Que ninguém a segure – nem mesmo Adanowsky, autor original de “Sozinha”: ‘Mas lá no fundo/Se penso bem/Sempre fui amada/Acompanhada’.
A mesma “Sozinha” suscita uma importante reflexão existencial muito latente nos nossos tempos, onde boa parte das coisas se resume a fáceis conquistas. A cantora não tenta responder a essas questões ao longo do disco; pelo contrário, justifica com a relativa liberdade de cantar em francês (“Jusqu’a La Mort”) e se permite revolver à juventude na cinquentista “I Wonder”.
Todavia, a melhor não-resposta às complexidades sentimentais está em “Ugabuga Feelings”. Ela prefere deixar de lado as falácias existenciais e cede à falácia do desejo despretensioso: ‘Ei, seu moço da cara boa/Me dá um cheiro aqui/E um amasso lá’. Enquanto isso fritam os efeitos na escaleta de Scandurra e agilizam-se os maracás de Clayton Martin, que evocam uma sonoridade meio tribal ‘dança-da-chuva’ – ou dança do descompromisso, whatever.
Se um chifre separa Journal de BAD (2010) de É o Que Temos, não é necessário saber. Isso pouco deve afetar Bárbara. Ela transmite segurança e não escorrega no lema ‘tenham dó de mim’ quando fala de sentimentalismo. Ela sabe que tem apoio, sabe que tem bons músicos ao redor e sabe que tem a chancela da mesmice que sempre vai elogiar o seu trabalho. Ainda assim, a vida continua.
Melhores Faixas: “Porque Brigamos”, “O Peso dos Erros”, “Ugabuga Feelings”.
