Gravadora: Young God
Data de Lançamento: 17 de junho de 2016

The Seer (2012), um disco de mais 2h de duração, era só o começo de uma épica jornada do Swans examinando o papel do homem, enquanto microcosmo, numa imensidão universal a partir da fé, do amor, do medo e das apreensões.

Embora To Be Kind (2014) tenha seus momentos otimistas, sugerindo um respiro, a trilogia anunciada pelo grupo liderado por Michael Gira chega a The Glowing Man como se o apocalipse fosse o único fim possível diante de tanta pungência, tantas pedras sonoras arremessadas aos nossos ouvidos em takes como “Mother of the World” e “Oxygen”.

Quanto a essas pedradas, The Glowing Man faz questão de ressaltá-las: em “Cloud of Unknowing”, somos expostos a 25 minutos do urgir e ressurgir estrepitoso de monstros humanos, evocados pelos vocais ininteligíveis de Gira.

“Frankie M” aposta no som tubular, tão acelerado quanto as micropartículas necessárias para refazer o momento do big bang. As vozes litúrgico-messiânicas e a insistência na percussão da canção parecem captar uma ligeira passagem pelo inferno. A violência sonora endossa a dor e o sofrimento, até que o turbilhão se dissipe e Gira narre o ‘viver de novo’ e ‘ressurgir de novo’ do personagem em questão.

Crítica: Swans | The Seer (2012)

As canções são menos objetivas que os álbuns anteriores, o que dá a entender que nem o Swans chegou a uma conclusão direito do que idealizara como início, meio e fim (neste caso, To Be Kind parece ser o ápice num extremo diametralmente oposto de The Seer, como se The Glowing Man não passasse de um encaixe disso tudo).

O som límpido e cristalino da primeira faixa, “Cloud of Forgetting”, parece continuação de “Song For a Warrior”, com Karen O. É um post-rock ‘clássico’, um ponto de partida ‘do zero’. As extremidades são exploradas no meio do caminho mesmo, dando a ideia de que o fato de serem inesperadas é que as torna tão terríveis – ou, tão maravilhosas.

A quebrada abrupta desses lastros é que faz de The Glowing Man um álbum confuso se comparado aos outros dois. A estrutura composicional de Michael Gira é regida por uma espécie de ritual que entende que o ouvinte precisa ouvir, deparar-se e maturar essas estruturas antes que elas passem para um próximo nível. Em “The World Looks Red/The World Looks Black”, por exemplo, a narrativa vocal é uma válvula que permitiria essa transição de forma mais ligeira. Ainda assim, o Swans prefere a lentidão, o que, em alguns momentos, torna essa jornada excruciante.

Nas canções mais ‘breves’ – leia-se: com menos de 10 minutos – a objetividade é destilada. “People Like Us” evoca imagens assombrosas, como ‘cisternas repletas de esqueletos’, para dizer que estamos presos a um destino fétido (‘precisamos sonhar para escapar’).

Crítica: Swans | To Be Kind (2014)

“When Will I Return?”, com 5 minutos, é uma das mais controversas. Nela, a esposa de Michael, Jennifer Gira, descreve uma terrível tentativa de estupro (‘grito até que ele se vá’). Neste caso, vale citar a mal resolvida história de que Larkin Grimm acusou Michael Gira de estupro. Jennifer chegou a dar declarações, desmentindo o suposto acontecido (Michael também se defendeu). O caso veio à tona cerca de dois meses antes do lançamento de The Glowing Man, jogando mais nuvens espessas num trabalho já nebuloso.

As composições trazem muito das ideias e posições de mundo dos músicos. “When Will I Return?” pode sugerir fronts diversos de uma mulher que passou por algo terrível: ‘Ooooh, eu estou viva!’, repete Jennifer nos minutos finais da canção. Talvez essa transição precisasse dos mais de 10, 20 minutos que Michael Gira dedica a outras composições – e isso vem à mente por conta do caso com Grimm, que ainda precisa ser esclarecido. Talvez a canção seja uma das muitas fábulas terríveis que fazem de The Glowing Man um álbum distópico.

Quanto a isso, vale buscar a resposta na faixa-título: no embate contra o misticismo e contra a religião, Gira se livra do medo do apocalipse ao dizer: ‘Eu sou José/E você é um mentiroso!’.  No fim da jornada, o autoconhecimento se distancia de ser uma meta atingida e o niilismo parece uma via possível.

Mas o que a última faixa, “Finally, Peace”, mostra, numa sonoridade total Love of Live (1992), é que o alívio está acima de todos os conceitos ideológicos e religiosos. ‘Sua mente gloriosa’, canta Gira, acompanhado de choirs femininos. Pode ser conclusão dele, mas The Glowing Man ainda deixa muitas questões em aberto.

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