Gravadora: Universal
Data de Lançamento: Scott: The Collection 1967-1970: 31 de maio de 2013

Exausto de lutar contra as dificuldades da praga negra, o cavaleiro Antonius Block se depara com a morte e tenta vencê-la em um jogo de xadrez. Durante a partida, surgem diversos questionamentos sobre o amor, a vida e a procura do divino que enfatizam seu desejo de arrematar a partida.

Este é o enredo de O Sétimo Selo, clássica película de Ingmar Bergman originalmente lançada em 1957. O longa estabelece um paralelo interessante com o início de carreira de Scott Walker, que acaba de ganhar uma versão remasterizada de seus primeiros cinco discos solos na coletânea Scott: The Collection 1967-1970.

Assim como o personagem procura deus ao tentar jogar com a morte, Scott procurava uma direção musical a seguir após gerar megalomania com os The Walker Brothers alguns anos antes, atraindo o praguejado título de ‘Beatles da América’.

Minha vida é uma busca vã de sorrisos sem sentido’, cantou o músico em “The Seventh Seal”, que não por acaso faz menção ao filme de Bergman. A faixa abre o antológico Scott 4 (1969), disco que se tornou divisor entre seu período de ‘aceitação’ e ‘reclusão’ – que se tornaria quase absoluta depois de fracassadas tentativas de reaver com seu público posteriormente.

Scott Walker confrontou seu público logo cedo. Começou como ídolo teen com o nome verdadeiro, Scott Engel, e depois causou frisson ao gravar álbuns bem-sucedidos com os The Walker Brothers nos anos 1960. O grande trunfo foi a descoberta de seu vocal barítono hipnotizante, tornando-se protagonista de clássicos como “The Sun Ain’t Gonna Shine Anymore” e “My Ship is Comin’ In”.

A renegação ao pop criou um distanciamento entre Scott e os demais membros, John Maus e Gary Leeds. O estopim se deu em sua vinda à Europa, momento em que deparou-se com a poesia do belga Jacques Brel após sair com uma garota numa festa da Playboy. (Pouco tempo depois, ele conversou com o empresário dos Rolling Stones Andrew Oldham sobre Brel. Oldham falou mal. E aí Scott percebeu que seguia na direção certa ao contrariar alguém tão acostumado com o hype.)

Brel foi a essência de seu debut solo, Scott, que trazia três de suas composições: a sádica “Mathilde”, que fala de sadomasoquismo de forma apaixonada; a niilista “My Death”, que pavimentou o caminho para a futura “The Seventh Seal”(com uma guitarra esplêndida de fundo); e a faixa de encerramento “Amsterdam”, que é mais fiel às raízes similares ao flamenco de Brel para falar de um marinheiro bêbado que me lembrou o personagem de Joaquin Phoenix no recente O Mestre (de Paul Thomas Anderson): ‘Ele sonha, sonha e sonha de novo’, canta, com um vigor à lá Frank Sinatra.

Tanto Sinatra como Tony Bennett são nomes óbvios a se comparar numa primeira audição de Scott. A recepção do público foi muito boa, apesar dos novos caminhos trilhados pelo músico: o disco alcançou a 3ª posição das paradas britânicas por um período de 17 semanas.

As grandes vitrines do disco na época foram suas versões para “Angelica” (Cynthia Weil, Barry Mann) e “When Joanna Loved Me” (Robert Wells, Jack Segal), mas o tempo provaria que os ouvintes teriam que prestar mais atenção em suas próprias composições.

Se “Such a Small Love” e “Always Coming Back To You” eram a prévia da climatização obscura que se tornaria célebre em suas mãos, “Montague Terrace (In Blue)” exibia a maestria de arranjos de Wally Stott numa composição que surgia como múltiplas pinceladas que formavam uma melancolia outonal.

Scott 2 levaria ao extremo o que aos poucos se consolidava como um terreno próprio. O ano era 1968, quando parte do público abandonava a ingenuidade alienante de fãzoide para abraçar a ingenuidade alienante do ‘verão do amor’.

Walker, que sempre renegou o rótulo de psicodélico, mais uma vez contou com os trabalhos de Stott e John Franz e aumentou singelamente o número de composições próprias. Desta vez, quatro eram suas: “The Amorous Humphrey Plugg”, “The Girls From the Streets”, “Plastic Palace People” e a belíssima balada “The Bridge”.

Mas os destaques ainda eram as faixas de outros compositores. As duplas Hal David/Burt Bacharach e Mark London/Don Black complementam o repertório com “Best of Both Worlds” e “Windows of the World”. Brel brilha mais uma vez em sua voz na faixa de abertura “Jackie” e é entoado de forma genuinamente bem-humorada em “The Girls and the Dogs”, onde Scott parece se travestir no mais insípido dos cantores de schlager com uma letra que enxerga os malefícios característicos de homens, mulheres e cachorros como a coisa mais normal do mundo.

Scott 3 seria o passo mais ousado do músico até então. Desta vez, a maioria das faixas seriam composições próprias. “It’s Raining Today” abre o disco de forma tão tácita quanto cristalina para desabrochar em “Copenhagen”, que consegue ser ainda mais melancólica. “Rosemary” é a que melhor dialoga com os trabalhos anteriores por seus arranjos orquestrais, mas ainda assim exibe um músico dentro de seu próprio casulo.

E não pense que Scott sairia dele tão rápido. Passeando pelo Romantismo em “Big Louise” e atropelando os metais como um trator na bem elaborada “We Came Through”, por uma suposta ironia com o título o casulo parece se fechar ainda mais em “Butterfly”, composição que nos obriga a captar alguma abstração que não sabemos direito do que se trata: ‘Há uma borboleta circulando a praia/Procurando nas pedras onde você está’.

Apesar da densidade, Scott 3 ainda não selaria o adeus a Jacques Brel. As três últimas faixas são creditadas ao belga, começando com a balada ao piano “Sons Of” e abrindo de vez o casulo com “Funeral Tango”, a única faixa animada do disco. Mesmo com o choque, o álbum atingiu a 3ª posição no Reino Unido não sem antes estabelecer um paradoxo: daí em diante, o público haveria de dar as primeiras torcidinhas no nariz em relação à sua obra.

Antes de chegar ao antológico Scott 4, o músico gravou um outro álbum que não consta nessa compilação da Universal: Scott Walker Sings Songs From His TV Series (1969). A não inclusão faz sentido: o disco foi exigido pela gravadora Philips para que entrasse na programação da emissora BBC.

Não há problema algum em passar batido por esse trabalho, que só conta com versões. A não ser que você queira se enganar com sua simulação de crooner barato ao interpretar standards de Burt Bacharach/Hal David (“The Look of Love”), Mitch Leigh/Joe Darion (“The Impossible Dream”) ou até mesmo nossa prestigiada dupla Vinicius de Moraes/Tom Jobim em “Someone To Light Up My Life” (que ficou bem melhor na versão de Sarah Vaughan). A voz continua impecável, mas até aí a relevância do músico já havia transcendido de forma demasiada soberba para que esse escorregão fosse permitido em seu catálogo.

O ápice dessa fase veio mesmo com Scott 4, onde Scott Walker se despiu a ponto de creditar o disco a seu nome de batismo (Noel Scott Engel). Ele inseriu uma citação do escritor Albert Camus (em tradução livre): ‘O trabalho de um homem não é nada a não ser essa caminhada lenta para redescobrir, por meio dos desvãos da arte, essas duas ou três imagens grandes e simples em cuja presença seu coração abriu pela primeira vez’.

Sem canções de Jacques Brel, as letras de Scott Walker ganharam um teor mais cinematográfico na construção de imagens como ‘cruzadas sombrias pelo céu’ em “The Old Man’s Back Again”, com um baixo aterrador de fundo. Os anjos cinzentos que protagonizam “Angels of Ashes” parecem ter ficado presos a uma escola de cinema de terror que nunca teve futuro (‘não há começo ou parada’). Sem deixar de mencionar a faixa de abertura “The Seventh Seal”, claro, para reforçar o argumento.

Menos híbridos e mais soturnos, os arranjos sugerem uma direção mais aterradora que os trabalhos de outrora. Esqueça um possível diálogo com a música dos anos 1950: Scott 4 ruma para o desconhecido numa viagem que foi um tanto cara ao músico. O disco não chegou às paradas e praticamente cravou a repulsa aos fanáticos por seu trabalho com os Walker Brothers.

No documentário Scott Walker 30 Century Man, dirigido por Stephen Kijak com produção executiva de David Bowie, Scott disse que a fraca aceitação do público a Scott 4 apenas postergou suas experimentações mais radicais que engatinhariam em Climate of Hunter (1984) e tomariam proporções absurdas em Tilt (1995), cuja estética inovadora, experimental e inusitada permeia até hoje seus dois últimos discos: The Drift (2006) e Bish Bosch (2012).

Para recuperar parte do público insalubre, ele foi aconselhado por vários produtores a ‘dar o que eles queriam’. E tem início a fase de ‘forçada reconciliação’ a partir de ‘Til the Band Comes In (1970), o último disco dessa caixa de relançamentos.

Não que essa estratégia tenha sido armada de prontidão: o álbum consegue resgatar com eficácia o appeal de seus primeiros discos solo, mas se impõe como um claro retrocesso musical. Composições sérias como “Joe” e “Stormy” evidenciam o grau de maturidade que pairava em sua obra, mas são deturpadas por arranjos impróprios que arremessam seu trabalho próximo à estação da pilhéria.

A faixa-título é um belo dum acerto, mas para cada acerto desses há comédias circenses como “Jean the Machine” para acabar com a credibilidade do disco.

Pior de tudo: o álbum não foi às paradas e gerou uma sucessão de tentativas frustradas tanto no fator aceitação de público, quanto no fator criatividade artística.

Em seguida veio a tríade The Moviegoer (1972), Stretch (1973) e Any Day Now (1973). Rechaçada até hoje por fãs e pelo próprio Scott, esses discos só foram lançados devido a um contrato estratosférico da Philips, que previa a conclusão de mais de 10 discos (!) em um período relativamente pequeno. Não há nenhuma composição própria do músico nesses trabalhos.

Depois disso, ele ainda iria retornar com os Walker Brothers e lançaria o influente Nite Flights (1978), retomando sua forma de compor do ponto de partida congelado em Scott 4.

Então, Scott Walker daria início a um modus operandi que constituía em longos hiatos entre um disco e outro: passariam seis anos até o lançamento de sua retomada solo, Climate of Hunter (1984). Mais 11 anos para Tilt (1995). E mais 11 até The Drift (2006).

Se analisarmos bem, obras como Tilt e Bish Bosch são devoluções a discos forçadamente easy listening como ‘Til the Band Comes In e Any Day Now.

Antes que tomasse um xeque-mate do universo artístico, Scott Walker conseguiu subverter o jogo ao dar passos mais largos na sua própria trilha criativa.

– Você vai me contar seus segredos? – desafia Block pela última vez diante do inevitável.

– Não carrego segredos.

– Então, você não sabe de nada?

O diabo fica de pé e exibe sua superioridade num enquadramento contra-plongée:

– Eu sou o desconhecimento.

Antes que o filme de sua trajetória artística se encerrasse, Scott Walker encontrou suas respostas e tornou-se, misteriosamente, o outro personagem de O Sétimo Selo.