Pegue as listas dos últimos cinco anos dos melhores discos do ano da Pitchfork e constate: a idade mais avançada de um artista com o álbum mais importante do ano não chega nem aos 40. Na verdade, breca nos 36 (idade atual de Kanye West que, em 2010, lançou My Beautiful Dark Twisted Fantasy aos 33).
Façam a mesma comparação em publicações como SPIN, Paste Magazine e Consequence of Sound: os artistas mais velhos a lançarem o disco mais importante do ano tinham, respectivamente por publicação, 33, 33 e 40, tendo em vista a idade dos músicos ao lançarem as obras.
Sabe-se que documento não é prerrogativa para se fazer um bom trabalho, mas vale ressaltar algo no mínimo curioso ao constatar tais números: por que músicos mais velhos não encabeçam essas listas?
De bate-pronto, a resposta é que eles estão alheios às novidades estéticas e, geralmente, aprimoram o caminho já trilhado há 20, 30, 40 anos atrás.
Isso diz muito sobre o que predomina na crítica musical de hoje: o fator ‘novidade’ se sobressai à ‘qualidade’, principalmente em um momento em que não faltam arautos com os olhos bem abertos (e os blogs bem acessados) para apontar ou denunciar o que está se fazendo de bom ou ruim na música atual.
A constante busca pelo novo, paradoxalmente, revela certo comodismo intelectual. Para boa parte das publicações dedicadas à música, o quesito inovação está centralizado no eixo pop-rock-hip hop-R&B-eletrônico e suas variantes. Procura-se a todo momento o artista que vai quebrar os paradigmas, quando o questionamento deveria ser: que raios de paradigma deve ser quebrado?
Nessa linha fina, os ditos ‘músicos velhos’ estão cortados desde o início. Peguemos exemplos: de 2012 pra cá, músicos do porte de Leonard Cohen, Neil Young, Booker T. Jones, Lee ‘Scratch’ Perry, Tom Waits, Dr. John, Bruce Springsteen, entre outros, lançaram discos tão bons ou melhores que seus clássicos conhecidos.
O fator ‘novidade’ se sobressai à ‘qualidade’, principalmente em um momento em que não faltam arautos com os olhos bem abertos para apontar ou denunciar o que está se fazendo de bom ou ruim na música atual
Ainda que uma pequena chancela tenha dado atenção a esses lançamentos, parte da crítica especializada analisa a obra desses ‘tiozinhos’ como se estivessem se deparando com aquele bêbado ranzinza que frequenta os botecos sujos da cidade: tem uma boa história mas, no momento, é preferível deixar para prestar atenção depois. Ou quando estiver velho que nem ele um dia. Ou… nunca.
Do ignorar, nasce a ignorância. A procura pela ‘ruptura estética’ já se tornou um mal degenerativo que deixou a crítica musical enferma. Prefere-se o pop pseudointelectual de Lorde a um disco sentimentalmente empírico de Charles Bradley. Um lançamento do The Black Keys, que não faz mais que reciclar o blues com um affair pop e apelo na produção de Danger Mouse, é visto com maior celebração que um disco do Swans, cuja potencialidade das obras pós Soundtrack For the Blind (1995) revelou uma banda ainda mais inspiradora que o período da no-wave da qual foi gerida, nos anos 1980.
(Falando em Swans – cujo vocalista, Michael Gira, tem 60 anos – seu penúltimo disco, The Seer (2012), foi recebido com grande entusiasmo pelas publicações mencionadas acima; ainda assim, foram poucos jovens até 30 anos, daqui, que ouvi comentando sobre. Situando na produção contemporânea, é uma das raras bandas que conseguiu assimilar a estética barroca no âmbito do rock, com dosagens nada moderadas de agressividade e melancolia. Apocalíptico e redentor. Post-rock e música orquestrada. Anárquico e erudito. Inclassificável.)
Uma das poucas publicações com status de ‘grande’ a dar atenção aos artistas mais velhos é a Rolling Stone. Mas o faz somente com os que considera cânones em sua linha editorial. Grupos como U2, Bob Dylan e The Rolling Stones sempre serão seus gênios incomparáveis e o público vem se cansando desse senso esteta da revista já que, por outro lado, curiosamente reforça os mesmos clichês adolescentes de NME e Billboard em algumas situações.
Ainda que essa procura pelo novo prossiga, tal desleixo analítico na crítica musical parece se fixar aos mais velhos mesmo. Nesses últimos cinco anos, uma porrada de bandas dos anos 1980 e, principalmente, dos anos 1990, voltaram à atividade, causando relativo frisson e gerando expectativas de redenção ao fraco cenário atual. O melhor exemplo disso é o My Bloody Valentine que, depois de 22 anos, retornou com m b v (2013). Praticamente todas as publicações elogiaram o disco, que não apresenta nada de novo se comparado ao clássico Loveless (1991). Em menor proporção de entusiasmo, outras bandas daquela década como Sebadoh, Carcass e The Afghan Whigs retornaram com proposta semelhante aos seus discos mais clássicos. Mantiveram sua base de fãs, com algum ganho aqui, outro acolá.
O reverso aconteceu com a banda que talvez melhor represente o senso estético do rock alternativo dos anos 1990. Depois de muitos shows e turnês pelo mundo, o Pixies sentiu a fúria da geração 2.0 após o lançamento do disco Indie Cindy (2014), que reuniu três EPs inéditos produzidos desde o ano passado. O Pitchfork, que há alguns anos atrás confessou que ‘não existiria’ sem a banda, cravou que tal retorno foi algo desnecessário. NME, Rolling Stone, Drowned in Sound e The Quietus fizeram suas avaliações mornas: todos bateram na mesma tecla de que o que se especulava sobre a banda foi jogado contra ela.
Isso mostra que as bandas que tiveram proximidade com a música adolescente em seus inícios de carreira sempre terão respaldo e visibilidade das publicações musicais. Ainda assim, tendem a ser peneiradas pela novidade.
O medo desses editores é não acompanhar a produção contemporânea e o desejo dos jovens – preocupação válida, mas que não pode se tornar uma obsessão sem limites (vide o quão estapafúrdia é aquela história da NME com o Palma Violets; mereceram a esculachada do jornal El País).
O que deve ser notado na produção de artistas mais velhos, além da experiência, é a forma com que cada gênero evolui em suas mãos. O incansável Lee ‘Scratch’ Perry, por exemplo, consegue dialogar o dub com praticamente qualquer novo subgênero nascente (algo comprovado com os últimos discos ao lado de The Orb). Os solos de guitarra de Neil Young parecem ainda mais flamejantes que há 40 anos atrás: pegue as extensas “Walk Like a Giant” e “Driftin’ Back”, de Psychedelic Pill (2012). Em Shifty Adventures in Nookie Wood (2012), John Cale procurou um senso de renovação pop em sua própria trajetória, dando outros ares à experimentação à lá Paris 1919 (1973). O próprio Lou Reed, que foi duramente criticado pela linguagem que decidiu explorar em Lulu (2011) ao lado do Metallica, foi mais ousado que um punhado de grupos de rock fechados em sua própria juventude que ouvimos por aí. Arctic Monkeys, The Killers, 30 Seconds To Mars, Two Door Cinema Club, Kasabian: nenhum deles ousou ir longe demais em suas propostas artísticas. E provavelmente não o farão tão cedo…
Engraçado é que os padrões de comparação utilizados nas resenhas dos críticos geralmente são pautados pela produção desses velhacos. Ainda hoje sonha-se com o capítulo repetido que os Beatles trouxeram à América. Artistas que englobam elementos de The Velvet Underground, Captain Beefheart, Sonic Youth, The Jesus & Mary Chain ou algum outro alternativo de tempos idos ganham ‘pontos’ por trilharem seus passos.
Todavia, salvo alguns ‘Paul McCartneys e David Bowies’, os resistentes às suas propostas estéticas originais de 30, 40 anos atrás ainda são relegados a um círculo fechado, frequentemente visitado por curiosos, revivalistas e antigos fãs. É como se não merecessem ser reinterpretados a um novo momento, um novo tempo – tão justificado quando se ouve o ‘novo’.
Não é cumprido o papel do crítico de renovar o senso de julgamento ao avaliar a obra de músicos outrora consagrados. Seria a procura do ‘novo revolucionário’ a bloquear essa ação ou estamos diante de uma preguiça generalizada?
